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EU, ELDER F.


Livros, filmes, fotografias e histórias contadas pela metade.

Que estranho, gostei

Na adolescência, quando os sites de torrent eram lugar sem lei, eu baixava filmes de temática LGBT escondido pra assistir quando ninguém estava em casa. Dentre os filmes baixados, a maioria com finais tristes, “La mala educación” (2004) do Pedro Almodóvar foi único que me deixou abismado por ser tão diferente do padrão. Na época, pensei quando terminei de ver o filme: que excêntrico. Com o tempo, comecei a fazer associações entre os filmes que eu assistia e quem os dirigia e, meio que sem perceber, me tornei um amante da arte do Almodóvar.

Na semana passada, sem quê nem pra quê, decidi assistir outra vez "Todo sobre mi madre" (1999). De novo ri, chorei e cantei "Tajabone" do Ismael Lô enquanto Manuela, depois de dezessete anos, voltava para Barcelona. Durante o meu processo de digestão do filme, ocorreu-me que embora eu tenha assistido todos os filmes recentes do Almodóvar, nunca assisti os primeiros, os da década de oitenta. Sendo assim, estimulado pela compulsividade diária de gastar meu dinheiro com coisas inúteis, comprei um livro gigante sobre todos os filmes do diretor espanhol intitulado "The Pedro Almodóvar Archives" e decidi assistir todos os seus filmes enquanto leio os capítulos referentes a cada um deles.


"Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón" (1980) foi o filme que deu início a trajetória do diretor, rendendo várias críticas negativas e algumas censuras em cinemas espanhóis. Com uma fotografia, como dizem lá na minha terra, "marromenos" e com um baixíssimo orçamento, Almodóvar construiu um filme, e esse é melhor adjetivo que encontrei, escatológico. Às vezes o filme parece estar satirizando o movimento punk, outras vezes parece ser uma celebração do punk com a cultura pop. O que é certo é o elemento que me atraiu pela primeira vez às suas obras: a excentricidade.

Em uma das cenas mais estranhas, Luci está ensinando Pepi a tricotar, quando Bom chega na casa com uma forte vontade de ir no banheiro. Pepi sugere que Bom faça xixi ali mesmo, em cima de Luci, visto que o dia está tão quente. Eu, enquanto isso, não sabia seu eu ria ou ficava chocado com a naturalidade da cena.

Eventualmente, o estilo do Almodóvar se desenvolveu e ele acabou ganhando um Oscar no final dos anos noventa, fazendo com que os críticos espanhóis, que no início duvidavam da qualidade do seu trabalho, tivessem que lhe conceder o título de um dos cineastas mais importantes do cinema mundial. 


Do mesmo jeito que o Guillerme Del Toro não larga mão das suas criaturas, Almodóvar não larga a mão da sua estranheza, e enquanto existir gente mais estranha por aí, nós conseguiremos passar despercebidos com as nossas próprias estranhezas. Por agora, me resta dedicar um tempo para seguir para o próximo filme da lista: "Laberinto de pasiones" (1982).