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EU, ELDER F.


Livros, filmes, fotografias e histórias contadas pela metade.
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Introspectivo - Conto

Deite-me em teu corpo e faça de mim e seu suor um fluxo. O caminho que sai e não retorna. Não te toco, mas olho teu corpo, os detalhes, o que queres esconder de mim e não consegue. E deliro sem a posse. Amo-te carnalmente e grito por ti em minha cabeça louca. Encostando involuntariamente meu corpo ao teu tenha tantas sensações. Paro e percebo que evitas contato. Estou perdido. O desejo se banha em teu corpo e salto em ti alucinadamente, sussurrando, gemendo, pulando de sonho em sonho, enquanto nem sentes a mim. A distância que nos separa são as ofegantes respirações. Querendo te tomar acabei esquecendo ao que vim e me faço apenas para ti. E permaneço ao teu lado.

Um desconhecido - Conto

Alguns minutos sozinho e me apresentaram o fascínio da noite. Essas horas que correm rápidas nos olhares ásperos a procura de seios e cobertor. Apresentaram-me o inferno esta noite, o inferno que mistura o fogo nos atos e frio nos momentos breves de timidez.
-Carlos, muito prazer!
Ignoro as falas e sinto uma vontade de não mais ignorá-las. Contrário a isto, quero deixar que falem, que me seduzam, acariciem meu ego e corpo sem pudor.
-Você está só?
A resposta não sai. Mais uma vez ignoro um rapaz carismático, mas desconhecido. E continuo andando por onde já andei, seja em sonho ou nas noites em que não tinha controle sobre os olfatos e tatos.
Alguém me agarra forte pelos cabelos e de imediato cerro os olhos. Evito acordá-los, afinal, quem estaria ali, pressionando-me tão minuciosamente? Fosse belo, simpático, ou algo longe de outros que ainda não tive, que continuasse sem me deixar descobrir sua identidade. Meu corpo dançava fora de qualquer ritmo. Sincronia e perfeição não faziam parte de mim. Tudo se repetia e continuava lúcido. Algum segundo de pausa, e não há surpresa, já estava só.

Fluxo - Conto

Não conto muitas aventuras, pelo pouco tempo que vivo, mas conto muitas histórias, que poderiam ter sido reais. Pense no homem antes de ouvi-lo. E talvez você conheça as mesmas histórias, que inconsciente você dizia ser reais.
Agora, tomemos isso como qualquer exemplo , estou em equilíbrio entre o céu, a terra, o meio que me cerca, estou, sabendo e não sentindo, correndo a uma velocidade que corre os planetas, especificamente o meu planeta. Penso continuar estático, porém vivo o dinâmico. Olho e respeito você, mas se não conhecesse as leis, e não as conheço, não lhe respeitaria. Você consegue sentir o que sinto? Consegue se imaginar girando a uma realidade inimaginável?
Você corre contra o tempo, a favor do dia, obrigado a rodar, mesmo que você não queira. Talvez por isso tenhamos a sensação de estar atrás, queremos parar, mas o mundo corre na frente, corre e nos deixa.

Vulto - Conto

Eu a vi. Passava entre as pessoas desesperadamente. Seu rosto carregava mágoas. De quê?! Ainda não sabia. Queria aproximar meu corpo ao seu e oferecer-lhe ajuda. Mas a cada passo que dava deixava-me invisível e sem importância. De súbito parou. Senti o silêncio constrangedor. Interrompido apenas pelas fortes batidas de um coração. Olhou-me. Fiquei atônito. Não conseguia desvendar aquele estúpido mistério. Aquele vulto que há pouco me enlaçou em seu pranto e fez-me seu. Estava ali. Sem gestos, sorrisos, sem vida. Seus olhos escuros refletiam incerteza. O que afinal, aquele ser escondia em si. Seu olhar dócil e afetivo não passava ao mundo o que sem dúvida parecia estar sentindo. Eu a amei por um instante. E no mesmo instante a deixei de amar. Queria ficar ali, vendo aquele semblante que incrivelmente me hipnotizava. Míseros segundos daquele olhar foram-me suficientes para suprema excitação. Ouço uma voz. Alguém me chama. Pergunta as horas. “22h15min”. Viro meus olhos em direção aos dela. Não a vejo mais. Impetuoso a procuro. Sumiu! Como?! Não havia respostas. Além daquelas absurdas, quais eu tristemente evitava ouvir.

Externos - Conto


Ouvia gritos estranhos vindos da rua, gritos que tinham poder maior do que gritos, gritos que mereciam outro nome: um nome que tivesse de ser gritado para se pronunciar. Contive-me em ver, não ver e quanta curiosidade. Sussurravam aos gritos, sim, sentia isso, todo o barulho era apenas para mim, mais ninguém, apenas eu os escutava, eu os repugnava, queria que estivessem longe, ao mesmo tempo que estivessem perto. A distância pode parecer uma solução, não o fim dos problemas.
Tentei, debalde, evitar ouvi-los, embora a força que tinham, consegui vencê-los, criei minha exclusiva barreira, mas não adiantava. Mais alguns minutos e os gritos apareceram. Joguei-me no chão, tampei com forças os ouvidos, tentei evitar qualquer ruído, qualquer explosão no silencio. Ainda com as mãos evitando, inutilmente, as intensas vozes: parei. Mantive-me alguns segundos estático. Levantei-me, deitei o corpo na janela, afastei mais as cortinas: eram crianças que se divertiam.


Uma promessa


O ar frio da madrugada fazia companhia à aflição que precedia a hora da partida. Ele e ela que há algumas horas atrás eram apenas um amontoado de suspiros seguidos de mordidas, eram agora uma promessa que levantava dúvidas em ambos os corações. Em pé, um na frente do outro, os dois se fitavam suspeitos de si mesmos e ao mesmo tempo incertos do que poderiam esperar do amanhã. Os olhares absortos um no olhar do outro estavam como se esperassem a tortura que se apresentava inevitável e breve. 

Uma saudade se debatendo para tomar posse já se manifestava no silêncio de um que era maior que o silêncio do outro. Na rodoviária, permaneciam os dois clandestinos dos seus próprios sentimentos. Uns rostos estranhos e presenças peculiares que em outra ocasião despertariam medo eram agora pormenores que rodeavam aquilo que ambos chamavam de mesmo caminho depois de extensas caminhadas solitárias. 

Já chamavam os passageiros aos poucos e uma fila ia se criando para que todos se pusessem nos seus lugares. Era anunciada a hora, a hora que se arrastava e se segurava firme a todos os momentos tão agradáveis que tinham se sucedido até então. Os dois se agarraram determinados num abraço quase angustiado e então deram espaço a um tumulto de beijos tão honestos que encheram ambos os olhos de lágrimas. O alvoroço de carinhos era de alguma forma uma tentativa de captar, ainda que por um último instante, toda a essência da outra criatura.

- Um dia a gente ainda vai se encontrar de novo? – disse ela, rompendo o silêncio com a voz um tanto desolada.

- Sim, a gente ainda vai se encontrar de novo. Eu prometo. – disse ele enquanto entrava no ônibus e se virava para deixar um sorriso antes de partir.

"Sem Título" - Conto

Deixo-te um pouco de paz. Deixo-te talvez até a guerra. Simplesmente deixo. Deixo meu corpo úmido a procura deste corpo teu. E junto de teu corpo guardo aventuras quais não me aventurei. Afinal o que queres? Fita-me com incerteza. Em desejos tu te afloras. Não encontro o que perdi em ti. Não encontro o que enlacei a mim. Quem és tu que me atormentas? Que tiras esse peso exacerbado que me toma o corpo? Fico aqui. Talvez ali. Pensamentos contundentes repassam e passam em mim. Tua ousadia infantil me deixa envergonhado. Sei que passas. E quando passas debalde tento te deter. Sinto vontade em te ter. E em te ter perco vontades. Por que me tomas? Teu complexo em asas me leva a outros destinos. Coisas reversas que tentei evitar. Lembra-te do dia? Creio que não. Sente falta das noites? Por que não me respondes? Sei que escondes lágrimas neste teu sorriso. Serves a mim, como o ar as aves. Contigo choro. Sem ti esqueço e vivo. Que é isso que me leva e arrasta vestes sujas pelo chão? Não fui o único. Não sou o último. Aqui em linhas escrevo o mundo. Um mundo que por ti se perde. Olhei e permaneço a olhar com veemência. Mesmo vendo em ti a imagem de nada. Sinto falta do que nunca tive. Perco os sentidos entre teu longo véu. E num afago anormal, meu corpo se enraivece quando te encontra. Para onde vais quando preciso de ti, e porque ininterruptamente tu vens a mim? Um dia, bem o creio, vencerei nosso orgulho.

Novo Mundo


Era o quê outrora a imaginação criava, o que a audição desenhava para mim. Mulheres com seus rostos ainda não marcados, pouco nítidos, uns corpos iguais ao que escuto – nas diferenças que minha mãe por vezes ressalta. Diz que são das ancas mais firmes, esparsas e chamativas, nada que de súbito chamasse atenção pelo olhar. Por um momento ignoro o que fisicamente me rodeia e devaneio.

Lembro que pequeno escutei dizer que a alma ficava presa ao corpo e o único deleite que a dita possuía do mundo era pela visão, era pelos olhos, nada mais além, via apenas, sem interagir. Penso em minha alma, que vida essa que lhe dei, merecia condição melhor, mas sabe-se lá o que as complexidades da vida colocaram no caminho meu sem que eu pudesse ver. Sem nunca ter visto.

Talvez eu seja minha alma, minha alma presa no eu criado pelo que ela, ou eu, escutamos. Ou somos distintos presos em um só propósito. Então dizem que depois da morte a alma vai embora e eu fico. Por vezes torço que minha alma seja eu mesmo – não quero ficar por cá não. Mas deve ser isso mesmo, meu eu inteligente nesse corpo que apenas obedece. O que é triste, meu eu minha alma ao mesmo tempo, então eu vivo só aqui dentro realmente.

Mas esses pensares sem fundamentos eu prefiro deixar de lado, me certificarei de descrever a cena curta que ainda me recordo. Haviam uns quadrados imperfeitos também que habitavam pelo chão, todos chamam de rua por essas bandas. E eu andava numa naturalidade, num caminhar tão espontâneo, sentia-me senhor supremo de cada passo meu. E assim era, até que uma comichão, uma coceira danada, aquele incomodo ferrenho e pá!

Um bicho me tirando o sono. Não era a primeira, distante de ser a última vez que tenho meus sonhos interrompidos. Chamei a mãe pra me guiar até o banho, já era dia, arrumei pra escola, numa reminiscência, enquanto ela dava os gritinhos peculiares de mãe. Nessas horas penso que se pudesse escolher, preferiria ser surdo ao invés de cego.

Libertinagem Literária

1.

Era a terceira vez na mesma semana. Não havia hora nem clima, acontecia a qualquer momento e independente de instante. O vício crescia faminto e a cada dia queria devorá-la um terço a mais que no dia anterior. Não conseguia sustentar os desejos e, ainda que tentasse combater o impulso, uma urgência queimava violenta no peito, mas o mesmo incêndio que levava o peito à combustão, convertia o dinheiro em cinzas. O trabalho não sustentava suas ambições e, para seu desespero, as ambições apenas que sustentavam sua vida. Usuária de livros desde a infância e dependente clandestina de literatura desde que conhecera as letras, Clarice lutava contra a vontade de ler sem saber como atenuar seus impulsos.

O motivo de sua angústia tivera origem antes mesmo que o ventre materno estivesse esperando recebê-la. Do que conhecia, e do que contava os pais, uma revolução havia brotado dos solos da nação, estendendo raízes até o juízo do povo. Naquela época, as elites ditavam as regras enquanto o resto da população era esquecida pelo Estado. O país era de alguns e o berço esplêndido era apenas de poucos. Felicidade e dias melhores eram utopias encontradas nos livros e o aconchego, difícil de ser encontrado no dia-a-dia de trabalho, existia apenas nas páginas da literatura. Os livros se destacavam, histórias corriam pelo cidades e, como numa explosão, a sedução pela palavra ganhava espaço como uma forma de esquecer, ainda que por alguns instantes, as mazelas sociais que eram frutos do descaso do Estado. O conhecimento se abastecia nos livros e descansava na imaginação, dando força ao grito das vozes suprimidas. Não demorou até que a multidão transformasse sua passividade em ousadia.

Enquanto a elite desfrutava dos incentivos governamentais, seus poucos problemas não se comparavam à situação caótica em que os menos favorecidos viviam. De um lado, o wi-fi de baixo alcance que enfurecia a classe média, do outro, uma vaga em uma universidade de prestígio tão difícil de ser alcançada por quem não tinha condições sociais favoráveis. Cansados de esperar pelo Estado, o povo decidiu entrar no único caminho que levaria ao mundo dos sonhos descritos na literatura: o caminho da luta. Determinados, homens e mulheres entraram na guerra contra o regime político armados apenas com a vontade de mudança no coração. O exército torturava sonhos e silenciava fé à bala, empilhando cadáveres com fúria primitiva e frieza sem igual. O povo assistia sua revolução nascer para encontrar repouso na cova encomendada pelo Estado. 

Desde a contenção dos levantes pelo exército, para evitar o fomento das idéias e a vontade de grandes transformações na estrutura política do país, a literatura havia sido banida. Obras que fizessem alusão a um mundo harmonioso e sem disparidades eram proibidas. Na televisão, as notícias eram mastigadas e os programas eram preparados para que não estimulassem o pensamento crítico. Leis anti-culturais eram aprovadas e os que aceitavam as ordens sem questionamentos se cegavam frente à manipulação estatal. Na ilegalidade, porém, é que a oportunidade reside, e logo após a aprovação das leis que baniam a literatura, estabeleceu-se a venda ilícita de conhecimento no país. Entre as sombras do estado dominador, deu-se a luz ao tráfico especializado de literatura. O fascínio pelas palavras acometia muita gente, mas os riscos inerentes ao consumo das letras eram assumidos por poucos, como Clarice.

Na infância, a menina permitia-se abrir a mente para a imaginação. Livros antigos eram guardados por sua mãe e, sempre que não tinham visitas em casa, a menina ia até o fogão da cozinha e abria a tampa do forno cuidadosamente para se encantar com a vista dos livros escondidos entre as panelas. O pai de Clarice contava histórias de tempos diferentes, da época em que ler não era transgressão e a menina sonhava com aquele mundo que parecia tão distante, e assim, sonhando, foi se tornando mulher.


2.

A antiga atração pela leitura havia se transformado em um vício indomável e Clarice trabalhava obstinada para ao final do mês garantir boas leituras. Entretanto, o estado distribuía recompensas a quem denunciasse suspeitos por tráfico de obras literárias, por isso era indispensável ter cautela quando entrasse no assunto literatura com alguém. Na maioria das vezes, conseguia fornecedores por intermédio da amiga Morgana, uma revolucionária enrustida que sonhava com a destituição do governo, mas que se disfarçava de comodista para não ser denunciada por dissidência.

Comumente boatos sobre levantes circulavam pelo país e isso incomodava o Estado, que mantinha informações sobre prováveis mandantes de rebeliões. Em protesto, poesias surgiam grafitadas nas paredes dos prédios governamentais e em resposta corpos de militantes eram encontrados pela cidade. Clarice não se agradava com a proibição dos livros, mas tampouco tinha simpatia por uma luta que julgava fadada ao fracasso. O Estado detinha o poder e contra ele não tinha força que se superasse. No entanto, Clarice experimentava de colérica abstinência quando os boatos de levantes circulavam, pois não havia quem se arriscasse a vender e raros estavam dispostos a comprar. O país se tornava instável nesses períodos até que o tempo transcorresse e algumas vozes fossem silenciadas, mas enquanto isso, qualquer risco corrido era displicência. 

A ausência de novas palavras deixava-lhe desatinada e era obrigada a ler o que tinha quando não podia correr riscos. Escutava vozes estranhas no meio da noite e acordava exasperada, como se lhe sussurrassem poemas ao pé do ouvido. A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer, conspirava-lhe Mário Quintana, e, quando acordava, relia o que tinha para acalmar a abstinência poética que perturbava o juízo. No meio da tormenta que a privação lhe causava, foi que a amiga Morgana lhe apresentou à Parságada, um morro localizado a uma hora da cidade, onde pessoas de diferentes classes sociais se reuniam para discutir ideais. Sua localização e propósito eram segredos, poucos sabiam onde o lugar ficava e os que o conheciam eram sempre indicados por antigos frequentadores. O cuidado com a língua era necessário, pois além das discussões revolucionárias, o espaço também servia para o comércio ilegal de livros. Os encarregados pelas suas vendas, porém, eram sabidos por demais e cobravam preços exorbitantes por capítulos separados. Nunca vendiam obras completas, arrancavam-lhe as páginas e comercializavam apenas capítulos avulsos. 

O risco a se correr era alto por uma boa história pela qual se enamorar ou por um personagem para se deixar levar pelo encanto. Mas o autocontrole falhava, pois de auto nem a estima Clarice possuía. Sua união com o dinheiro era marcada por instabilidades e, sempre que alguns trocados surgiam, logo se desfaziam como translúcida fumaça, indo parar no bolso dos vendedores de Parságada. Quando terminava o dia de trabalho, Clarice pegava o interestadual e, depois de descer do ônibus, caminhava alguns pedaços de terra até chegar à Parságada. Comprava seus capítulos e, quando a sorte conspirava a seu favor, voltava de carona para a cidade. Quando chegava perto de onde morava, escondia cautelosa os papéis de baixo da roupa e passava rapidamente no armazém para comprar o lanche da noite. Na casa, organizava na geladeira o que nutria seu corpo e, na estante secreta que mantinha no seu quarto, guardava o que sustentava sua alma. 


3.

Os custos inerentes aos capítulos comprados começavam a martelar na sua cabeça. No trabalho, enquanto finalizava alguns relatórios, pensava na possibilidade de entrar em uma crise financeira se não conseguisse conter os gastos excessivos. Não se manteria se continuasse dedicando altas porcentagens da sua remuneração mensal ao hábito da leitura. Desde quando a mãe havia retornado para o interior do Rio de Janeiro junto com o pai de Clarice, tornava-se ainda mais difícil sustentar as próprias necessidades. O aluguel estava atrasado e a energia da casa havia sido cortada três meses consecutivos. Era um inferno, pois sempre priorizava a luz ao aluguel. Já que lia pela noite, não poderia dispensar a iluminação, mas se não pagasse o aluguel, não teria sequer um lugar para praticar a leitura.

– Clarice, tamo fechando – Nonato, o segurança do escritório, interrompia seus pensamentos.

– Já tô indo, seu Nonato – respondia sem interesse enquanto verificava as horas – São cinco horas ainda, seu Nonato, por que tamo fechando cedo? Vai acontecer algum protesto hoje?

– É que foi decretado toque de recolher. Parece que o corpo de um estudante foi encontrado ao lado do prédio da prefeitura – relatava concentrado.

Clarice podia até sentir os sabores de fim do mundo, o exército invadindo as ruas, homicídios sem culpados, dissidentes encarcerados por serem encontrados com páginas nos bolsos, métodos de tortura aplicados com frieza nazista nos suspeitos de levantes e o comércio de literatura mais uma vez se tornando difícil. Era sempre assim quando encontravam corpos mortos, corpos mortos que vinham como recados dos manifestantes. Embora essas informações não fossem divulgadas nos veículos de comunicação, a língua do povo balbuciava as histórias aos quatro cantos, mesmo que alguns não acreditassem na veracidade dos relatos. Clarice enchia-se de cautela quando ouvia as histórias, e mesmo que pudesse contar com a galera de Parságada como fornecedora dos livros, andar com manuscritos nos bolsos já seria o suficiente para que lhe condenassem como dissidente. Não poderia correr o risco de ser presa por descuido, mas precisava de imediato comprar mais alguns capítulos antes que seu direito de ir e vir estivesse inteiramente ameaçado. 


4. 

Clarice não pensou muito e meteu no bolso o dinheiro que ainda restava do mês. Nos pés depositou coragem, para que corressem sem tropeçar, e seguiu o caminho que levava à rodoviária. Nas ruas, a movimentação era notável, gente se atropelando, janelas semicerradas e alguns tiros ao longe, para conter a correria que precedia o caos. Não se importava com a confusão de pessoas, desde que conseguisse chegar à rodoviária em tempo. Para o que não foi sua surpresa, quando chegou, estava abarrotada de tudo quanto era gente. Enquanto esperava a multidão afobada se dispersar, Clarice conseguiu pegar o interestadual quando já era quase oito da noite. Sentou-se, exausta, torcendo para que seus planos dessem certo. Era ir, voltar e nada mais. Indignada, pensava se antes não estava tudo bem, se havia necessidade que se iniciasse tamanha confusão quando os dias corriam tranquilos, exceto pelas dívidas que não acabavam. 

Quando se aproximava de Parságada, Clarice fez o sinal e estacionou na estrada mal iluminada, descendo do veículo e olhando os lados, como se buscasse a presença de qualquer movimento estranho. Caminhou ainda mais alguns metros até encontrar uma entrada para o morro. Espremendo-se entre paredes de casas antigas, ela entrou no caminho que levava ao barraco onde os traficantes de livros se reuniam. Notando um silêncio incomum quase se aproximou do local, Clarice deu alguns passos lentos. Estaria disposta a invadir a casa e pegar os livros que bem entendesse, tamanho a ansiedade em que estava, mas uma voz a deteve.

– É coragem demais sair sozinha agora, hein? – perguntou uma voz que vinha de trás.

– Cadê todo mundo? Quero comprar uns capítulos, tenho dinheiro aqui – a indiferença na voz tentava disfarçar o medo.

– Ninguém se arrisca a sair com esse toque de recolher – respondeu numa dramaticidade escancarada.

– O fato político não me interessa, quero comprar algumas coisas para ler e só, será que dá?

– Dá sim, mas assim que comprar, vai embora daqui, pois se te pegam, não apenas te prendem, mas te estupram antes de te jogarem no camburão.

Depositou o dinheiro nas mãos do elemento e recolheu apressada os capítulos de seu interesse. Quatro de Capitu, seis de O Pequeno Príncipe e outros primeiros capítulos de obras que se arriscaria a ler. Pegou tudo e enfiou na bolsa, uma felicidade clandestina percorrendo a espinha enquanto guardava os manuscritos cuidadosamente. Mais uns minutos e estava fora do sítio, indo de ônibus a caminho de casa na única rodovia que dava acesso à cidade. Queria chegar em casa imediatamente para começar a devorar as páginas e ela tentava decidir por qual história começar quando na entrada o ônibus parou bruscamente.

– É a polícia – alguém reclamou.

Dois guardas caminhavam em direção ao automóvel e Clarice não acreditava que depois de tudo estar dando certo seria pega a tão poucos quilômetros de casa. Não se deixaria ser presa, não por causa de páginas avulsas que trazia na bolsa. Levantou-se rápida de onde estava sentada e fez sinal para descer, esperando que o motorista abrisse as portas do veículo. Trimmm, trimmm. Nenhuma resposta ao movimento impaciente. Trimmm, trimmm. Os guardas se aproximavam do automóvel enquanto o coração batia em frequências mais elevadas. Trimm, trimm. Enquanto as portas da frente se abriam para os guardas, enfim as de trás se escancaravam. Clarice desceu nervosa e andou com pressa na direção dos prédios comerciais que demarcavam o início da cidade.

– Senhora, parada aí! – gritou o guarda quando a viu sair em disparada na direção do comércio da cidade e da solidão dos antigos prédios.

Clarice se perdia as ruas rodeadas de grandes edifícios enquanto o guarda parecia acelerar o passo atrás. De noite, aquela parte da cidade era solidão e Clarice transpirava medo à medida que os pés a guiavam em direção ao inexplorado. O corpo excitado, estimulando o coração e elevando a pressão arterial, deixavam-na como se flutuando entre as ermas vielas. Não seria presa, não deixaria que lhe capturassem. Estava disposta a correr enquanto as pernas lhe sustentassem e a lutar enquanto o corpo suportasse. Ouvira histórias horríveis da boca de Morgana, da polícia a favor do Estado que violava e constrangia mulheres, sem piedade nem decência, apenas por diversão e abuso do poder.

Os pés exaustos, como se tivessem correndo por dias, sinalizavam fadiga. Ofegante, olhou para trás e, não vendo ninguém, parou por um momento, encostando-se ao lado de um grande latão de lixo na calçada estreita da rua. Respirava atônita enquanto tentava evitar ruídos, mas o desejo premente de encher os pulmões era barulhento e Clarice arfava ciente de que poderia chamar atenção. Durante o breve repouso, levantou os olhos suados e, na sua frente, as palavras vermelhas grafitadas gigantes na porta da garagem de um prédio: 

A PALAVRA É O MEU DOMÍNIO SOBRE O MUNDO. C. L.

Enquanto percorria as sílabas rubras, pensava se um dia as palavras teriam o poder de guiar os passos da humanidade. Senão do mundo como um todo, pelo menos do país onde vivia. Perguntava-se se seriam capazes de conceder aos humanos alguma dose de humanidade, algum sol de um novo mundo. Pela primeira vez, sentiu-se incomodada com o governo a ponto de querer, se lhe dessem fogo, queimar a sede do Estado, e, se lhe dessem armas, dizimar a injustiça que perturbava o sono do trabalhador. O fôlego irado se renovava a cada pensamento indignado e, levantando-se, pôs os pés a correr mais uma vez para longe dos peões do Estado quando uma sombra surgiu na sua direção.

– Te peguei – disse o policial enquanto agarrava os seus braços e sacudia o corpo de Clarice – Onde você pensa que vai com tanta pressa?

Enquanto enroscava um braço em volta do corpo hesitante de Clarice, a outra mão revistava seus pertences. Ela estava assustada demais para pensar, poderia reagir, mas sua força não se comparava a do homem. O único músculo que tinha desenvolvido era o cérebro e, até onde sabia, o cérebro nem músculo era, então sempre ficava em desvantagem contra os braços grandes do brutamonte. Se sua fúria tivesse poder, teria repartido o corpo do sujeito em quantas partes fossem possíveis partir naquela mesma hora. 

– O que é isso aqui? Livros? – corria o olhar pelos papéis ainda pressionando o corpo de Clarice ao seu – Uma moça tão bonita se metendo com tráfico de literatura... – dizia lento enquanto lançava olhares furtivos para Clarice.

Os olhos da mulher encontraram os do policial e, num rápido movimento, ele segurou seus longos cabelos escuros, mergulhando ousado o nariz entre as curvas de seu pescoço, como que buscando o seu suave perfume de mulher. Clarice não pensou muito, abriu a boca e mirando no espaço entre a supraclavicular e a jugular, reuniu nos dentes a sua agonia, e enfiou os caninos no pescoço do homem. O grito que se sucedeu a mordida ecoou pela rua escura e Clarice abandonou a garganta fissurada quando sentiu na boca um sabor diferente. Libertou-se dos braços do policial e cuspiu no chão. 

O ódio percorria as suas veias e, dirigindo o olhar para o corpo do policial no chão, ela sorria enquanto o homem tentava conter o sangue que escapulia da garganta. Ajoelhou-se para guardar suas páginas espalhadas, algumas molhadas pelo sangue. Não vendo ninguém ao redor, arrancou do homem a arma que carregava na cintura e guardou-a com cautela debaixo da roupa. Pensou ainda um instante no que estava fazendo, mas quando se levantou já não era mais a mesma.

Estado de Natureza

O gato da mulher, depois de tanto sofrer, morreu de velhice. Ela, sem saber para onde levar o corpo, juntou os restos do felino e colocou tudo numa sacola plástica, dessas de supermercado. Pela rua, silenciosa e arriscada, andou sem encontrar um depósito para o cadáver do bichano. Já ia quase desistindo quando dois elementos de moto pararam ao lado dela. O de trás, levantando uma arma, disse-lhe carrancudo: - Passa a sacola, mulher - e ela, sem pensar, entregou aliviada a sacola ao sujeito.


Fim de Tarde


Que cheiro ruim, pensou. Esse de fim de tarde, atenuado talvez só pelo perfume de mulher. De tal modo, não importava. De onde estava estendeu os braços fazendo sinal, precisou mantê-los firmes no alto, por um instante pensou que seria em vão. Não foi, subiu o ônibus como que já fatigado pela tortuosa viagem em direção a casa.

Contou o dinheiro as pressas, separando um punhado de trocados de nem um mindinho de moeda. Escolheu o punhado, com as melhores das intenções, e entregou ao cobrador. Fitaram-se, como que se desafiando por motivos nem tão nobres. É dinheiro, ora essa, que faça suas caretas pro diabo, não pra mim.

Sentou-se à janela, sentindo o cheiro de fim de tarde. Inspirava o cansaço vespertino deixando que lhe habitasse os pulmões. Pensava em Mina, ao mesmo tempo em que expirava tédio, e queria, por um momento, não esquecer todo aquele perfume moreno com borrifos de suor. Essa tarde, ao menos, valeu pelo restante do dia. Não menos diferente que os outros, mas o dia já tinha lhe esgotado as energias. Pela manhã tanto trabalho e um pouco de luxúria pela tarde não era assim tanto pecado. Só de pensar na tarde já ia ficando intumescido.

Mesmo dentro dos pensamentos foi capaz de ouvir as altas palavras: - Sem pânico, geral. Vâmo todo mundo tirando o celular dos bolsos tudo e passando o dinheiro pra minha mão. Justo agora, pensou. Lembrou-se dos livros na mochila, do dinheiro no bolso e dos outros objetos não mais importantes que fariam falta no futuro. Fechou os olhos por um segundo, abriu-os, observou a situação e vomitou as palavras, com uma saliente faísca de poesia para o habitual: - Puta que pariu!

Alucinógeno - Conto


Atrelado aos corpos nus se encantavam uns poucos sentimentos. Cobertor entre cabelos e fumaças, cinzas e cachaças e o próprio corpo coberto pelo fascínio mútuo que as tomava no instante. Envolvimento entre respirações, músculos e a paixão que forte as consumia. Amavam-se como loucas e antigas conhecidas. Tudo ocorria com a normalidade que ocorrem as normalidades. Sem esperar, sem consentir, vivendo apenas e caminhando encontraram com ambas as suas belezas. E enfim as notaram, deram-lhe a atenção e estavam entregues aos seus desejos.
Uma Clarice, outra Eduarda. E assim, amarradas nos seus próprios braços, Clarice por vontade e Eduarda por mais nobre compasso, ficaram por longos minutos. Conversaram, debateram, discutiram o que fazer, o que sentir: o importante era que falassem. Tomavam conhecimento de si mesmas há poucas semanas e já estavam convivendo intensamente. Eram lascívias e dúvidas os seus pensamentos.
Tanto furor surgira recentemente, considerando vida como diminutivo universal. Desenvolveu-se a velocidades incompreensíveis. Estudavam juntas há mais de ano. Encantadas, colocavam na mente a idéia espiritual de antigos encontros, coisas passadas. Estavam entorpecidas por seus infantis, confortantes, sentimentos. No corredor muitas vezes se olharam, no corredor da universidade, no corredor imundo de seus próprios pensamentos. Não se interessavam, ou talvez se interessassem, por nada. Estavam tornando públicas as suas maluquices.
Amaram-se e deixaram de se amar. Viviam um casal. Os olhos cansados do repetido. O corpo entregue as mesmas alucinações. E, quaisquer que sejam as razões, brigas. Clarice deixou a vida acadêmica e dedicou-se aos seus projetos: poesia, fotografia e viagens intermináveis. Eduarda continuava a mesma, porém fria. Tudo não era mais o antigamente. As horas teimam em correr e nos mudam violentamente.
Em uma das viagens com a família, Clarice tomara conhecimento de uma provável traição. Uma de suas conhecidas havia contado ver Eduarda. Um arrependimento amalgamado a novos planos lhe ocupou o restante tempo da viagem. Pensava em tudo a menina, até mesmo escrever.
Telefone tocou, identificara-se, pausa momentânea, e gritam em direção aos fundos: “Eduarda! Alguém no telefone, vem! Depressa!”. Do outro lado Clarice ouviu a gritaria, quis desligar, mas foi mulher. Eduarda , achando quem era, atendeu.
Conversaram, discutiram, queriam se encontrar e encerrar os assuntos. Mas não estavam dispostas, embora a vontade de uma. Aproveitaram os momentos conflitantes e despejaram seus problemas, suas criticas, suas ausências. O amor sempre caminha na direção errada. Choraram, porém, tudo estava feito. A sorte de uma, a sorte de outra. Não havia criaturas tomadas de sofrimento. Apenas um momento a mais. Esqueceram o passado, viveram, desde então, o que tinham de viver.


Contratempo Moderno

Trimm trimm trimm.

"Alô?" 
"Alô, Márcio? Já caiu a recarga que eu fiz pra ti?"
"É engano, meu amigo, não tem Márcio nenhum aqui."

Tu tu tu tu tu.

Mas a recarga caiu.


Consertando os erros

Não há melhor forma de reparar desacertos do que conversando com quem tem o direito de escutar as suas explicações. Não é que a conversa vá garantir a correção das suas falhas, mas quando as suas palavras se mostram em concordância com o que os seus olhos querem expressar, o seu argumento se torna mais autêntico.

Ele esperava, sentado no ponto do ônibus, que a qualquer instante ela dobrasse a esquina e aparecesse disposta a reparar toda a confusão que tinha sido criada. Já passava da hora marcada, mas o significado por trás dos últimos meses seria motivo suficiente para que ela se encontrasse com ele inclinada a começar tudo de novo (ou pelo menos ele tentava se convencer disso).

 “Se você quiser recomeçar, me encontra hoje às 16h no lugar onde aconteceu nosso primeiro beijo.”

A mentalidade adolescente poderia estar voltando, deixou-se refletir por algum tempo, ou ele apenas estava ridiculamente apaixonado. Ela talvez não tivesse entendido a mensagem. No final de tudo, pensou, detalhes como o lugar do primeiro beijo, a data do primeiro encontro ou a roupa da primeira vez fossem minúcias que apenas cabeças imaturas conservavam.

Levantou-se por um momento e permaneceu em pé, olhando em ambas as direções sem encontrar o que procurava. Já estava certo de que ela não apareceria e a frustração era incontestável. Ele começou, então, a andar seguindo o caminho de volta para a casa, mas sempre olhando para trás com algum resquício de esperança.

Era uma ingrata, alguém que não era capaz de reconhecer o valor de tudo o que se permitiram e que sem dúvida não merecia o que ele estava disposto a abdicar por esse relacionamento. Desapontado, ele pensou nisso tudo e em outras coisas mais. Não chegou a pensar, porém, que ela talvez tivesse um lugar diferente em mente de onde teria acontecido o primeiro beijo dos dois.


Clarice

Clarice queria reaprender a andar em passos firmes e queria readquirir a capacidade de caminhar com os pés agarrados ao chão, mas seus sonhos sempre a tiravam da superfície. É uma característica tão adolescente, pensava, a de querer dar passos em estradas que ainda não foram construídas e mesmo assim ela com frequência se despedia do presente para percorrer rotas que só existiam dentro da sua própria imaginação. O futuro era usado como válvula de escape para o agora que, embora promissor, se apresentava sem qualquer encanto aos seus olhos.

Uma das consequências de (re) aprender a andar são as inúmeras quedas envolvidas no processo, concluiu algum tempo depois. Em um dado momento você acha que já tem a coragem necessária para largar os apoios que lhe mantém firme e então você reúne suas forças para ganhar alguma coordenação. Em seguida, você corre buscando estabilidade, mas a pouca experiência faz com que seus pés parem de tocar o chão e de repente você desaba sem entender o que aconteceu a sua volta. O que aconteceu, porém, é que você tentou correr antes mesmo de ter aprendido a se equilibrar. 

Clarice deu início, portanto, ao processo lento de se agarrar ao agora e engatinhou com calma no presente sem usar suas expectativas e sonhos para se erguer. Os tombos que se sucederam lhe ensinaram como andar de acordo com a superfície em que se deslocava. Uns demoram bem mais que outros para perceberem que os hematomas estão presentes em praticamente todos os nossos processos de aprendizagem, pensou. Com isso em mente, ela se preparou para as outras tantas quedas que surgiriam, e se certificou de não dar passos muitos longos e nem sair da parte pavimentada daquilo que ela chamou de seu próprio caminho, o caminho que a liderava no máximo até a semana que vem.

Um Jovem Libertário - Conto

Hoje incerta localização, antes a cidade de Társis. Pouco conhecida por quem muito já lhe viu o nome nos textos tradicionais. Lugar de ventos fortes, flora não tão rara e pessoas nem tão comuns para a visão de um ocidente influenciador, mas que na época não se dava por descoberto, nem a curiosidade para se descobrir. Era conhecida a cidade antiga, e nesse cenário distante foi que se viveu a história de um jovem medroso, imaturo, porém dependente de suas opiniões.

Era astuto, bravo, temido por si mesmo e de uma lentidão de decisões que quase lhe custou à vida. Fora destinado a fazer viagem para Nínive, outra cidade que não merece relativa descrição. A caminho de seu primeiro rumo muito pensou, parou para discutir sobre a trajetória que fazia, esse vínculo feito por um mandante que mal conhecia, mas ainda seguiu. A dúvida era tanta e tanto, também, o incomodo que decidiu parar, refletir, brincar de ter autoridade sobre seu próprio corpo, sem saber que esse sistema complexo pertence aos vermes naturais.

Sentou-se próximo de alguns ludibriados, enganados pelo vinho, seduzidos pelo fogo da terra e todos, já socializados, puseram-se a conversar. Até falaria besteira se tivesse aquele poder - Ah! Aquele fundamental poder que ainda não lhe pertencia-. Pensou, ainda temendo o que pensar, mas raciocinou.

-Tenho pernas, visão e outros sentidos ainda não falhos. O que faço seguindo os passos de outros? Ora, mas vou para outro canto, um lugar que eu mesmo me leve, me arraste sem mandamentos.

E foi o jovem peralta, correu para outros cantos. Depois de alguns tempos estava em Jobe, outra antiga cidade que desmerece comentários por ora incertos. Chegando por lá soube de um navio que saía para Társis- Aquela de início comentada, despercebida nos livros empoeirados-. Arranjou-se por algum lugar na embarcação e partiu. Navegava para a sua independência, a sua responsabilidade, agora poderia gozar dos prazeres, antes condenados por seu superior que tanto censurava suas atitudes de moço feliz. E não viajava em vão, fique bem claro isto, fora mandado sem retrucar as ordens que visam somente o ordenador, tolo.


Já na embarcação os outros tripulantes souberam de alguém importante enraivecido, um homem que conseguia lançar raios e punições. As ventanias comunicaram o temporal que vinha, o caos que se formava, alguns diziam ouvir de trovoadas, que tempestades se aproximavam. Para outros, sussurraram ainda as ondas do mar que um desespero lhes esperava.

O rapaz descera antes disso tudo ao porão e dormia, neste inicio de vendaval, em profundo sono, num sono enfeitiçado. Enquanto roncava, os outros ativos permaneciam aos estopins de lágrimas e sincronia de passos correndo sem aparente salvação. O temporal brincava, e todos jogavam seus pertences no mar, eram roupas, calçados, caixas, filhos, vida e algumas lamentações. Pediam clemência para os seus tantos respectivos deuses, foi aí que o mestre do navio, afim de conferenciar mais deuses, chamou o dorminhoco aos berros.

-Acorda! Acorda! Uma calamidade se passa, nossas vidas estão à mercê dos deuses, agora! Já! Acorda-te! Ajuda! Ajuda! Pede para um dos teus para que faça cessar tão longo temporal, peça antes que eu te jogue nas águas! Precisamos leve deixar está embarcação! Implora as tuas entidades para que não pereçamos!

E diziam outros no convés aos seus companheiros:

-Vamos lançar a sorte, reúnam-se, lancemos a sorte e veremos quem foi o causador deste infortúnio que nos rodeia, quem é o culpado deste mal que caiu sobre nossas vidas!

E lançaram a sorte, depois de todo já reunidos. A culpa caiu sobre o janota, ainda com rosto marcado pela sonolência.

-Te declaras culpado por este mal? Por este castigo por qual passamos, por estas pessoas quais no mar jogamos? De onde vens? Qual é teu povo? Onde fica a tua terra?

-Sou um novo viajante, desprovido de senso, desajuizado, que temia a um rei, um deus, um mandante, mas agora nada teme, responde.

As faces rubras de medo e notável pavor fitaram-no com grande ódio. Os braços dos bravos homens lhe agarraram com força, não sabiam o que se fazer para que o temporal acalmasse, todavia, o culpado na mão, a sorte bem podia ser manipulada. Antes mesmo que chegassem a conclusões o julgado decidiu por ser jogado no temporal, lançando no abismo que são essas águas violentas. Tão logo deixado o jovem no mar estava e a tempestade cessou.

O aventureiro arremessado, na inquietude das ondas, fora surpreendido por um grande peixe, e o vertebrado engolira seu corpo que boíaca são, sugou-lhe com ferocidade digna de um espetáculo para o rei frustrado com o seu servo desvirtuoso.



E o garoto Jonas por lá ficou, ainda hoje vive pelo ventre de algum peixe descomunal, vive devorado, mas vive feliz. Segue o caminho que tanto quisera, mesmo que nas vísceras de um peixe, e apaixonado está pela liberdade repleta de escamas que o mandante cheio de remorso fizera-o ter. O importante é que tivesse essa abertura aos seus pensamentos, expressões e cultos mais interessantes, que tivesse o seu próprio modo de viver.



Pedrinho nas alturas - Conto

Cidade pequena em qualquer interior. Pedro acorda cedo, chama os pais e dá início ao dia. Comumente acostumado ao tradicional. Café de tarde, amigos pequenos e a voz áspera que lhe dita ordens. E nada de novo que não fosse velho, quando se tem imaginação se ganha o mundo. Alguns sonhos pequenos lhe ocupam o resto do dia. Vontade de conhecer o mar, desejo de ter mil petecas e de poder viajar até onde sua mente lhe permitir. Mas havia algo em especial que lhe consumia a atenção: a visão das alturas. E não poderia ser qualquer altura, tinha de ser alto, bastante alto, para que se visse o que persiste em cair e o que se mantém inóspito e inferior. A visão não importava; poderia ser homens, mato, bichos, gente morta. Do alto tudo era belo. Quando se está longe dos problemas as dificuldades parecem diminutas e a tristeza transforma momentos de caos em apenas um momento confortável.
Um dia quente e seu pai entra no casebre. Olha de forma rígida para a mulher. Esta percebe as palavras antes que elas existam, e exclama:
-Você não vai!
-Cala a boca mulher! Desde quando preciso de permissão para fazer o que quero? Grita o homem. Não teve muitos anseios esta criatura na infância. E agora, já adulto, não tem coragem. A voz grosseira e o olhar que não para servem para defesa, já que os pais hoje brindam com os vermes na terra. Cresceu sem amores, com exceção da mãe. Mas a velha era obrigada a amá-lo. Dever de mãe, como dever de um filho em amar quem o pariu. Deixou sua vida cedo, há décadas que a esqueceu para tomar a vida dos outros como sua.
-Como vamos ficar? Aqui, Pedrinho e eu?
-Com o dinheiro que mandarei da capital, já conversamos sobre isso, fico por pouco tempo, depois volto..., e nesta hora abraçou a mulher quase que afetuosamente, mas dispensou-lhe beijos.

E o homem viajou. O pouco tempo que disse ir ficar, foi pouco mesmo. Passado um ano a vida tornou-se melhor. Estava na casa de um amigo na cidade grande, o início foi difícil, mas é sempre assim, passado é passado e agora é agora, contava para mulher. Prometeu levar o filho para a urbanização, depois levaria quem mais faltasse. Pedro achou o pai mais alegre, saudável, vivo! Enquanto a mãe tinha desconfianças a cerca da fidelidade.
O menino e o pai foram. Passaram alguns dias por lá, enquanto a mãe era feliz com o pouco. Um dia, o pai não tendo com quem deixar o filho, levou-lhe para o trabalho. Logo que Pedrinho chegou era tudo fascínio. No primeiro andar ele se sentia o melhor homem do mundo. Alguns amigos do pai o elogiavam: “Que rapaz bonito!”. Mas o garoto não estava disposto a descobrir o ego para que o acariciassem, queria apenas subir. E subiram. Quinto andar e tudo já era gozo, mesmo que não soubesse a definição exata para a palavra, sabia que aquele era o melhor momento para poder usá-la. O pai deixou-lhe em um canto qualquer e começou o trabalho. Mas o jovem sabia que podia ir mais alto, e não resistiu. Subiu rapidamente por algumas escadas, pois elevador era complicado, e esforçou-se para continuar correndo. Chegou ao último andar. Encontrou uma porta com alguns escritos. Se pudesse lê-los, certamente os lia.
Abriu a porta e avistou uma reluzente janela. Aproximou-se vagarosamente com algum receio e debruçou-se nos braços do portal, como um ser apaixonado se debruça sobre o seio de seu amor. Uma sensação de esplendor explodiu-lhe o peito. Abriu os braços e contemplou a beleza. Se pudesse eternizaria o momento. Mas como eternizar o passageiro? Se pudéssemos tal proeza estaríamos todos estatizados. Não sabendo exatamente o que fazer e fascinado por sua visão, Pedrinho atirou-se para fora do ambiente e deixou seu corpo ser tragado pelo vento. Desde então, ele se tornou parte do que contemplava e história de mentes fantasiosas.

Objeto de Vida - Conto


Seguraram-na firme. Firmeza de fome, vontade de comer, beber, vontade de se alimentar. Nem se importavam com os seus sentimentos, as suas vontades, queria ou não ser usada. Fora comprada em uma viajem ao sul, no sul que quiser. Foi cara, muito dinheiro para hoje nada receber, um carinho, um amor, só dedos sujos, raro uns toques, lábios umedecidos, um grande abraço quando quem lhe abraça parece estar triste, ou com grande sem vontade, vontade de fazer nada apenas, mas vontade e sem vontade parecem não existir ao mesmo tempo.
Foi nos dias desses sentimentos sufocantes, abatidos, passageiros, que ficou sabendo que seria trocada. Tempos tristes passou, tantos anos na casa, na família, enraizada nas histórias, era a própria história. Chorou, gemeu, lamentou, no entanto, permaneceu no lugar habitual. Não fora trocada, nem seria, daria o que tinha de dar, e quando não desse mais poderiam pensar melhor.
Um susto grande levou quando se feriu, logo no iniciar do grande período de chuvas, no frio do clima, densidade do ar, terras que bebiam água. Muito foi usada, tornou-se legitimadamente objeto. Por aí, chegou alguém na casa, aparentemente anormal, sonolento, porre talvez, era um dos donos. Nessa ocasião lhe mudaram a vida drasticamente. Sede tinha, o homem que chegara. Avistou-a, preparou seu chá, o de costume quando os males são as sonolências, mal feito, mas feito. Ele, alguns centímetros de distância da que veio do sul, poucas respirações, mais nada. Fitaram-se por alguns minutos, o chegado a tomou fortemente pelos lados, mas ainda tonto, deixou que caísse, e caiu.
Frustração e muita dor ao mesmo tempo. Quebrou-lhe a orelha de forma violenta graças à embriaguez, e só quem já quebrou a orelha para ter capacidade de descrever a dor que se sente. Não era mais útil. Era um lixo, algo a ser jogado fora. Passou o restante dos seus cacos de vida abalada, antes era inteira, agora, no entanto, uma xícara quebrada.


Súbita Ventura - Conto

Ter pernas, mas não usá-las. Complicada a situação de quem anda mentalmente, quer seguir, correr, mas não raro consegue uma queda, fruto de algum desequilíbrio, aforismo, empolgação. Era uma vida sem ventos a do navegador. Perdera o controle das suas pernas em um acidente quando descarregava barris, se quer sabia para onde iam os barris, quais eram esse barris, o que de tão importante, pesado, denso podia ter dentro dos barris e que lhe tiraram o caminhar essencial, antes nem tão notado.

Foi em umas igrejas, apegou-se em algumas crenças, fez alguns rituais. Nada que lhe beneficiasse, fazia por conselho, um disse-me-disse, a vizinha da amiga que aprendera uma pajelança com a sobrinha da tia-avó e nada mais.

Queria seus movimentos, era um sonho, sonhos nunca tivera, agora orgulhava o seu caráter pelo sonho solto no ar. Ganhava dinheiro, pensão, alguma espécie de ajuda, indenização, fosse o que fosse, era dinheiro. Auxiliava a vida de forma ociosa, era mais um nada que uma coisa, e ser coisa nem sempre é desejo, neste caso, desde que não fosse nada.

Uma espécie de milagre acontecera, não acreditava nisso, todos falavam e falavam, atribuiu a repentina cura a qualquer milagre. Sim, começou repentinamente a ter seus movimentos. Que disputassem os deuses até conseguir, um que seja, o mérito de curador.

No mesmo instante da glória, levantou-se. Correu nas grandes velocidades, correu, correu, correu e fechou os seus olhos de navegador sem obstinações. Abriu os braços, ainda na correria, e deixou que seus pés lhe levassem.

Ouviu um forte barulho, alguém gritando, a felicidade ensurdecera, buzina atenciosa. A sensação que ainda teve foi de um grande baque, uma forte e intensa batida no meio de seu corpo, caiu inanimado e despediu-se, por ali, com motoristas tentando ajudá-lo, da vida que a pouco recebera novamente.

Agente comunicante, poluidor - Conto

I.
Já acordado abri as janelas e deparei-me a tal casualidade: vizinhos, apegados e desafetos caminhavam estranhamente pelas ruas. Andavam tão presos, tão sem consciência de seus próprios andares. Não foi espanto, gente assim tem de sobra por estas bandas, no entanto, hoje se faziam maioria. Uma fumaceira se possuía do ar. Não entendi os fatos; não entendi o que ia e voltava de forma inebriante. O que os fez tomarem tal aspecto? Não tinha certezas absolutas, mas no ambiente também se formavam outras estranhezas. O novo brigava a procura de espaços entre as edificações da cidade, no corpo dos homens, na mente dos poluídos. Tudo é morbidez.
Procurei por minhas tecnologias, liguei-as, ativei-as, dei-lhes energia, mas ainda estavam tomadas de aberrações. A minhas respostas, certamente, não as encontraria. Se as encontrasse, estariam disformes. O sol tocava o inferno dos homens, mas o título já possuía, faltava-lhe apenas o clima. Deu-me vontade de gritar, loucura ou simples vontade, e até gritaria forte se pudesse, mas a voz já não me obedecia, ela obedecia aos outros: os animais, os porcos famintos, os aproveitadores. Os que tinham a liberdade de grito gritavam manipulados, os outros se calavam conformados com sua sorte. Juntei-me as minhas poucas definições e me dispus a fugir, embora tudo me dominasse: tudo.

II.
Na rua, as esquinas travavam competições, os prédios se digladiavam, os carros tossiam doentes e as pessoas se encaravam com olhares suspeitos. Enquanto a comunicação ocupava seu povo com a novela, as outras companheiras vagavam nos meios com fome de gente, fome do conhecimento alheio, fome de sugestão, fome de críticas e dispostas a devorar qualquer vestígio de razão. E devoravam com toda a fome indissociável de seu poder alienador, rasgavam, trituravam, agarravam firmes as essências pensáveis, as massas inteligíveis, os nervos pensantes. Dos que já eram seus de costume, sugavam até a última das compreensões e deixavam apenas um vazio que se dispersava entre os próximos.
Corria o mais veloz que minha disposição permitia, corria loucamente, assustado, com desespero e sem trilha predestinada. Corria para que não me devorassem, não consumissem o que de tão importante ainda havia em mim. Roupas já não me haviam, sentia-me descoberto.

III.

Outros também corriam. E nestes me agarrei firme, arrastei seus corpos para próximo do meu. Todos nós, que sabíamos estar correndo pelos mesmos motivos, avançamos rumo a esconderijos, frestas no sistema, crateras que após a queda nos levassem ao inferno, mas nunca a aberração. Achamo-nos distantes, tempo depois, e nos sentamos todos a fim de discutir, brigar, expor nossos medos e contradições, nossos desejos e opiniões, nossas realidades verdadeiras.
De onde estávamos víamos de tudo, as pessoas passavam perto de nós, e nos contorcíamos quando a fumaça que vinha de fora vinha nos tomar, a fumaça que vinha das precipitadas conclusões.
Fiz amigos, todos já íntimos, desapegados de nossas vergonhas, constantemente brigando contra nossa ignorância e orgulho. Muito os amei naqueles dias. No entanto, tínhamos dentro de nossas convicções a certeza de que esses momentos breves logo cessariam. Somados éramos poucos. A massa nos procurava para saciar sua sede, não havia dúvidas: estavam famintos.
Sabíamos de tudo neste instante, mas nada fizemos. Não havia mais escolhas: tudo indicava o fim. Despedi-me de todos com a certeza inconsciente de uma separação. Não mais os veria, eles não mais me veriam, e toda a luta se tornaria esquecimento. Abracei um por um querendo contar os meus sentimentalismos e mostrar o tão fraca que se mostrava as minhas ambições. Cheguei próximo a fenda que nos separava da civilização carnívora, neste momento meus sonhos se dissolveram: sai. Nunca mais lutaria. Jamais seria o mesmo, desde então. Todas essas palavras que representam o inalcançável, impossível, fora de qualquer possibilidade me angustiavam. O nosso poder nos levou a morte e ressuscitou toda a submissão rebelde, sempre seremos os poucos. O mundo se fez através de ventanias e palpitações e agora estamos todos calados.
Ainda hoje fazemos o que nos é capaz, todos juntos, de fazer. Não nos encontramos frequentemente. Mas nos dias que se sucedem as notícias serão as de sempre. As noticias que alienam e as que sustentam a ignorância do povo. E todos estarão escondidos.