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EU, ELDER F.


Livros, filmes, fotografias e histórias contadas pela metade.
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Amanhã vai ser outro dia

É na sexta-feira à noite, quando volta pra casa carregando sacolas de supermercado na mão, que ele percebe o quanto vem se tornando uma versão mais nova e menos sofrida dos seus pais. No ônibus, com o corpo apertado entre as mochilas, ele pensa no próprio futuro. O pensamento volta com frequência na fila da padaria, no elevador do trabalho ou na praça de alimentação enquanto espera alguém. O futuro parece tão intangível mas tão real, tão pendurado na sua frente sem que possa ser alcançado.
Há dez anos atrás ele imaginava bem mais, mas os próximos dez anos a contar de agora carregam uma carga menor de expectativa. Na Internet, ele leu um artigo sobre a crise dos vinte anos e acreditou que a estivesse atravessando. Em casa, ao se abrir com os pais, encontrou outro diagnóstico: falta do que fazer. Quando decidiu conversar com algum outro membro da família, uma tia sugeriu uma corrente de libertação na Universal. Em face de tão pouco espaço para debate, decidiu esperar que o tempo o ajudasse a compreender os tudos da vida que andavam reverberando os nadas do dia-a-dia.
No final, ele não quer acabar como aquela mulher em Boyhood, que cobre o rosto com as mãos, no auge dos seus cinquenta anos, e chora ao constatar que esperava da vida tão mais e de si mesma tão além. “I just thought that would be more”, conclui a personagem frustrada. “Don’t we all think the same?” Ele se pergunta sempre que a cena passa pela sua cabeça.
Ao deixar o ônibus para trás, ele dobra a primeira esquina à direita e na porta de casa respira extenuado. Quando entra, retira os sapatos, guarda as chaves e observa por um instante o desenho que a janela da sala faz do mundo. Passa alguns minutos tentando compreender a obra de arte que se forma do lado de fora e não entende a predileção do artista por cinza. Nesse longo momento de contemplação, ele guarda o significado da pintura que não existe para depois.
No banho, ele permite que o beijo da água no seu rosto amenize o estado de inércia. Como que salvando suas forças, ele apoia as duas mãos na parede antecedendo um pranto que não vem. Acaba o banho, enrola-se na toalha ainda úmida da última vez e, antes de deixar o banheiro, lança um sorriso meio sem-graça para o seu próprio reflexo no espelho ao lembrar que amanhã vai ser outro dia. Durante todas as horas que se passaram, são esses últimos minutos que o deixam mais próximo de entender a cinzenta obra de arte que atravessa a janela da sala.

Consertando os erros

Não há melhor forma de reparar desacertos do que conversando com quem tem o direito de escutar as suas explicações. Não é que a conversa vá garantir a correção das suas falhas, mas quando as suas palavras se mostram em concordância com o que os seus olhos querem expressar, o seu argumento se torna mais autêntico.

Ele esperava, sentado no ponto do ônibus, que a qualquer instante ela dobrasse a esquina e aparecesse disposta a reparar toda a confusão que tinha sido criada. Já passava da hora marcada, mas o significado por trás dos últimos meses seria motivo suficiente para que ela se encontrasse com ele inclinada a começar tudo de novo (ou pelo menos ele tentava se convencer disso).

 “Se você quiser recomeçar, me encontra hoje às 16h no lugar onde aconteceu nosso primeiro beijo.”

A mentalidade adolescente poderia estar voltando, deixou-se refletir por algum tempo, ou ele apenas estava ridiculamente apaixonado. Ela talvez não tivesse entendido a mensagem. No final de tudo, pensou, detalhes como o lugar do primeiro beijo, a data do primeiro encontro ou a roupa da primeira vez fossem minúcias que apenas cabeças imaturas conservavam.

Levantou-se por um momento e permaneceu em pé, olhando em ambas as direções sem encontrar o que procurava. Já estava certo de que ela não apareceria e a frustração era incontestável. Ele começou, então, a andar seguindo o caminho de volta para a casa, mas sempre olhando para trás com algum resquício de esperança.

Era uma ingrata, alguém que não era capaz de reconhecer o valor de tudo o que se permitiram e que sem dúvida não merecia o que ele estava disposto a abdicar por esse relacionamento. Desapontado, ele pensou nisso tudo e em outras coisas mais. Não chegou a pensar, porém, que ela talvez tivesse um lugar diferente em mente de onde teria acontecido o primeiro beijo dos dois.


Uma promessa


O ar frio da madrugada fazia companhia à aflição que precedia a hora da partida. Ele e ela que há algumas horas atrás eram apenas um amontoado de suspiros seguidos de mordidas, eram agora uma promessa que levantava dúvidas em ambos os corações. Em pé, um na frente do outro, os dois se fitavam suspeitos de si mesmos e ao mesmo tempo incertos do que poderiam esperar do amanhã. Os olhares absortos um no olhar do outro estavam como se esperassem a tortura que se apresentava inevitável e breve. 

Uma saudade se debatendo para tomar posse já se manifestava no silêncio de um que era maior que o silêncio do outro. Na rodoviária, permaneciam os dois clandestinos dos seus próprios sentimentos. Uns rostos estranhos e presenças peculiares que em outra ocasião despertariam medo eram agora pormenores que rodeavam aquilo que ambos chamavam de mesmo caminho depois de extensas caminhadas solitárias. 

Já chamavam os passageiros aos poucos e uma fila ia se criando para que todos se pusessem nos seus lugares. Era anunciada a hora, a hora que se arrastava e se segurava firme a todos os momentos tão agradáveis que tinham se sucedido até então. Os dois se agarraram determinados num abraço quase angustiado e então deram espaço a um tumulto de beijos tão honestos que encheram ambos os olhos de lágrimas. O alvoroço de carinhos era de alguma forma uma tentativa de captar, ainda que por um último instante, toda a essência da outra criatura.

- Um dia a gente ainda vai se encontrar de novo? – disse ela, rompendo o silêncio com a voz um tanto desolada.

- Sim, a gente ainda vai se encontrar de novo. Eu prometo. – disse ele enquanto entrava no ônibus e se virava para deixar um sorriso antes de partir.

Clarice

Clarice queria reaprender a andar em passos firmes e queria readquirir a capacidade de caminhar com os pés agarrados ao chão, mas seus sonhos sempre a tiravam da superfície. É uma característica tão adolescente, pensava, a de querer dar passos em estradas que ainda não foram construídas e mesmo assim ela com frequência se despedia do presente para percorrer rotas que só existiam dentro da sua própria imaginação. O futuro era usado como válvula de escape para o agora que, embora promissor, se apresentava sem qualquer encanto aos seus olhos.

Uma das consequências de (re) aprender a andar são as inúmeras quedas envolvidas no processo, concluiu algum tempo depois. Em um dado momento você acha que já tem a coragem necessária para largar os apoios que lhe mantém firme e então você reúne suas forças para ganhar alguma coordenação. Em seguida, você corre buscando estabilidade, mas a pouca experiência faz com que seus pés parem de tocar o chão e de repente você desaba sem entender o que aconteceu a sua volta. O que aconteceu, porém, é que você tentou correr antes mesmo de ter aprendido a se equilibrar. 

Clarice deu início, portanto, ao processo lento de se agarrar ao agora e engatinhou com calma no presente sem usar suas expectativas e sonhos para se erguer. Os tombos que se sucederam lhe ensinaram como andar de acordo com a superfície em que se deslocava. Uns demoram bem mais que outros para perceberem que os hematomas estão presentes em praticamente todos os nossos processos de aprendizagem, pensou. Com isso em mente, ela se preparou para as outras tantas quedas que surgiriam, e se certificou de não dar passos muitos longos e nem sair da parte pavimentada daquilo que ela chamou de seu próprio caminho, o caminho que a liderava no máximo até a semana que vem.

Libertinagem Literária

1.

Era a terceira vez na mesma semana. Não havia hora nem clima, acontecia a qualquer momento e independente de instante. O vício crescia faminto e a cada dia queria devorá-la um terço a mais que no dia anterior. Não conseguia sustentar os desejos e, ainda que tentasse combater o impulso, uma urgência queimava violenta no peito, mas o mesmo incêndio que levava o peito à combustão, convertia o dinheiro em cinzas. O trabalho não sustentava suas ambições e, para seu desespero, as ambições apenas que sustentavam sua vida. Usuária de livros desde a infância e dependente clandestina de literatura desde que conhecera as letras, Clarice lutava contra a vontade de ler sem saber como atenuar seus impulsos.

O motivo de sua angústia tivera origem antes mesmo que o ventre materno estivesse esperando recebê-la. Do que conhecia, e do que contava os pais, uma revolução havia brotado dos solos da nação, estendendo raízes até o juízo do povo. Naquela época, as elites ditavam as regras enquanto o resto da população era esquecida pelo Estado. O país era de alguns e o berço esplêndido era apenas de poucos. Felicidade e dias melhores eram utopias encontradas nos livros e o aconchego, difícil de ser encontrado no dia-a-dia de trabalho, existia apenas nas páginas da literatura. Os livros se destacavam, histórias corriam pelo cidades e, como numa explosão, a sedução pela palavra ganhava espaço como uma forma de esquecer, ainda que por alguns instantes, as mazelas sociais que eram frutos do descaso do Estado. O conhecimento se abastecia nos livros e descansava na imaginação, dando força ao grito das vozes suprimidas. Não demorou até que a multidão transformasse sua passividade em ousadia.

Enquanto a elite desfrutava dos incentivos governamentais, seus poucos problemas não se comparavam à situação caótica em que os menos favorecidos viviam. De um lado, o wi-fi de baixo alcance que enfurecia a classe média, do outro, uma vaga em uma universidade de prestígio tão difícil de ser alcançada por quem não tinha condições sociais favoráveis. Cansados de esperar pelo Estado, o povo decidiu entrar no único caminho que levaria ao mundo dos sonhos descritos na literatura: o caminho da luta. Determinados, homens e mulheres entraram na guerra contra o regime político armados apenas com a vontade de mudança no coração. O exército torturava sonhos e silenciava fé à bala, empilhando cadáveres com fúria primitiva e frieza sem igual. O povo assistia sua revolução nascer para encontrar repouso na cova encomendada pelo Estado. 

Desde a contenção dos levantes pelo exército, para evitar o fomento das idéias e a vontade de grandes transformações na estrutura política do país, a literatura havia sido banida. Obras que fizessem alusão a um mundo harmonioso e sem disparidades eram proibidas. Na televisão, as notícias eram mastigadas e os programas eram preparados para que não estimulassem o pensamento crítico. Leis anti-culturais eram aprovadas e os que aceitavam as ordens sem questionamentos se cegavam frente à manipulação estatal. Na ilegalidade, porém, é que a oportunidade reside, e logo após a aprovação das leis que baniam a literatura, estabeleceu-se a venda ilícita de conhecimento no país. Entre as sombras do estado dominador, deu-se a luz ao tráfico especializado de literatura. O fascínio pelas palavras acometia muita gente, mas os riscos inerentes ao consumo das letras eram assumidos por poucos, como Clarice.

Na infância, a menina permitia-se abrir a mente para a imaginação. Livros antigos eram guardados por sua mãe e, sempre que não tinham visitas em casa, a menina ia até o fogão da cozinha e abria a tampa do forno cuidadosamente para se encantar com a vista dos livros escondidos entre as panelas. O pai de Clarice contava histórias de tempos diferentes, da época em que ler não era transgressão e a menina sonhava com aquele mundo que parecia tão distante, e assim, sonhando, foi se tornando mulher.


2.

A antiga atração pela leitura havia se transformado em um vício indomável e Clarice trabalhava obstinada para ao final do mês garantir boas leituras. Entretanto, o estado distribuía recompensas a quem denunciasse suspeitos por tráfico de obras literárias, por isso era indispensável ter cautela quando entrasse no assunto literatura com alguém. Na maioria das vezes, conseguia fornecedores por intermédio da amiga Morgana, uma revolucionária enrustida que sonhava com a destituição do governo, mas que se disfarçava de comodista para não ser denunciada por dissidência.

Comumente boatos sobre levantes circulavam pelo país e isso incomodava o Estado, que mantinha informações sobre prováveis mandantes de rebeliões. Em protesto, poesias surgiam grafitadas nas paredes dos prédios governamentais e em resposta corpos de militantes eram encontrados pela cidade. Clarice não se agradava com a proibição dos livros, mas tampouco tinha simpatia por uma luta que julgava fadada ao fracasso. O Estado detinha o poder e contra ele não tinha força que se superasse. No entanto, Clarice experimentava de colérica abstinência quando os boatos de levantes circulavam, pois não havia quem se arriscasse a vender e raros estavam dispostos a comprar. O país se tornava instável nesses períodos até que o tempo transcorresse e algumas vozes fossem silenciadas, mas enquanto isso, qualquer risco corrido era displicência. 

A ausência de novas palavras deixava-lhe desatinada e era obrigada a ler o que tinha quando não podia correr riscos. Escutava vozes estranhas no meio da noite e acordava exasperada, como se lhe sussurrassem poemas ao pé do ouvido. A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer, conspirava-lhe Mário Quintana, e, quando acordava, relia o que tinha para acalmar a abstinência poética que perturbava o juízo. No meio da tormenta que a privação lhe causava, foi que a amiga Morgana lhe apresentou à Parságada, um morro localizado a uma hora da cidade, onde pessoas de diferentes classes sociais se reuniam para discutir ideais. Sua localização e propósito eram segredos, poucos sabiam onde o lugar ficava e os que o conheciam eram sempre indicados por antigos frequentadores. O cuidado com a língua era necessário, pois além das discussões revolucionárias, o espaço também servia para o comércio ilegal de livros. Os encarregados pelas suas vendas, porém, eram sabidos por demais e cobravam preços exorbitantes por capítulos separados. Nunca vendiam obras completas, arrancavam-lhe as páginas e comercializavam apenas capítulos avulsos. 

O risco a se correr era alto por uma boa história pela qual se enamorar ou por um personagem para se deixar levar pelo encanto. Mas o autocontrole falhava, pois de auto nem a estima Clarice possuía. Sua união com o dinheiro era marcada por instabilidades e, sempre que alguns trocados surgiam, logo se desfaziam como translúcida fumaça, indo parar no bolso dos vendedores de Parságada. Quando terminava o dia de trabalho, Clarice pegava o interestadual e, depois de descer do ônibus, caminhava alguns pedaços de terra até chegar à Parságada. Comprava seus capítulos e, quando a sorte conspirava a seu favor, voltava de carona para a cidade. Quando chegava perto de onde morava, escondia cautelosa os papéis de baixo da roupa e passava rapidamente no armazém para comprar o lanche da noite. Na casa, organizava na geladeira o que nutria seu corpo e, na estante secreta que mantinha no seu quarto, guardava o que sustentava sua alma. 


3.

Os custos inerentes aos capítulos comprados começavam a martelar na sua cabeça. No trabalho, enquanto finalizava alguns relatórios, pensava na possibilidade de entrar em uma crise financeira se não conseguisse conter os gastos excessivos. Não se manteria se continuasse dedicando altas porcentagens da sua remuneração mensal ao hábito da leitura. Desde quando a mãe havia retornado para o interior do Rio de Janeiro junto com o pai de Clarice, tornava-se ainda mais difícil sustentar as próprias necessidades. O aluguel estava atrasado e a energia da casa havia sido cortada três meses consecutivos. Era um inferno, pois sempre priorizava a luz ao aluguel. Já que lia pela noite, não poderia dispensar a iluminação, mas se não pagasse o aluguel, não teria sequer um lugar para praticar a leitura.

– Clarice, tamo fechando – Nonato, o segurança do escritório, interrompia seus pensamentos.

– Já tô indo, seu Nonato – respondia sem interesse enquanto verificava as horas – São cinco horas ainda, seu Nonato, por que tamo fechando cedo? Vai acontecer algum protesto hoje?

– É que foi decretado toque de recolher. Parece que o corpo de um estudante foi encontrado ao lado do prédio da prefeitura – relatava concentrado.

Clarice podia até sentir os sabores de fim do mundo, o exército invadindo as ruas, homicídios sem culpados, dissidentes encarcerados por serem encontrados com páginas nos bolsos, métodos de tortura aplicados com frieza nazista nos suspeitos de levantes e o comércio de literatura mais uma vez se tornando difícil. Era sempre assim quando encontravam corpos mortos, corpos mortos que vinham como recados dos manifestantes. Embora essas informações não fossem divulgadas nos veículos de comunicação, a língua do povo balbuciava as histórias aos quatro cantos, mesmo que alguns não acreditassem na veracidade dos relatos. Clarice enchia-se de cautela quando ouvia as histórias, e mesmo que pudesse contar com a galera de Parságada como fornecedora dos livros, andar com manuscritos nos bolsos já seria o suficiente para que lhe condenassem como dissidente. Não poderia correr o risco de ser presa por descuido, mas precisava de imediato comprar mais alguns capítulos antes que seu direito de ir e vir estivesse inteiramente ameaçado. 


4. 

Clarice não pensou muito e meteu no bolso o dinheiro que ainda restava do mês. Nos pés depositou coragem, para que corressem sem tropeçar, e seguiu o caminho que levava à rodoviária. Nas ruas, a movimentação era notável, gente se atropelando, janelas semicerradas e alguns tiros ao longe, para conter a correria que precedia o caos. Não se importava com a confusão de pessoas, desde que conseguisse chegar à rodoviária em tempo. Para o que não foi sua surpresa, quando chegou, estava abarrotada de tudo quanto era gente. Enquanto esperava a multidão afobada se dispersar, Clarice conseguiu pegar o interestadual quando já era quase oito da noite. Sentou-se, exausta, torcendo para que seus planos dessem certo. Era ir, voltar e nada mais. Indignada, pensava se antes não estava tudo bem, se havia necessidade que se iniciasse tamanha confusão quando os dias corriam tranquilos, exceto pelas dívidas que não acabavam. 

Quando se aproximava de Parságada, Clarice fez o sinal e estacionou na estrada mal iluminada, descendo do veículo e olhando os lados, como se buscasse a presença de qualquer movimento estranho. Caminhou ainda mais alguns metros até encontrar uma entrada para o morro. Espremendo-se entre paredes de casas antigas, ela entrou no caminho que levava ao barraco onde os traficantes de livros se reuniam. Notando um silêncio incomum quase se aproximou do local, Clarice deu alguns passos lentos. Estaria disposta a invadir a casa e pegar os livros que bem entendesse, tamanho a ansiedade em que estava, mas uma voz a deteve.

– É coragem demais sair sozinha agora, hein? – perguntou uma voz que vinha de trás.

– Cadê todo mundo? Quero comprar uns capítulos, tenho dinheiro aqui – a indiferença na voz tentava disfarçar o medo.

– Ninguém se arrisca a sair com esse toque de recolher – respondeu numa dramaticidade escancarada.

– O fato político não me interessa, quero comprar algumas coisas para ler e só, será que dá?

– Dá sim, mas assim que comprar, vai embora daqui, pois se te pegam, não apenas te prendem, mas te estupram antes de te jogarem no camburão.

Depositou o dinheiro nas mãos do elemento e recolheu apressada os capítulos de seu interesse. Quatro de Capitu, seis de O Pequeno Príncipe e outros primeiros capítulos de obras que se arriscaria a ler. Pegou tudo e enfiou na bolsa, uma felicidade clandestina percorrendo a espinha enquanto guardava os manuscritos cuidadosamente. Mais uns minutos e estava fora do sítio, indo de ônibus a caminho de casa na única rodovia que dava acesso à cidade. Queria chegar em casa imediatamente para começar a devorar as páginas e ela tentava decidir por qual história começar quando na entrada o ônibus parou bruscamente.

– É a polícia – alguém reclamou.

Dois guardas caminhavam em direção ao automóvel e Clarice não acreditava que depois de tudo estar dando certo seria pega a tão poucos quilômetros de casa. Não se deixaria ser presa, não por causa de páginas avulsas que trazia na bolsa. Levantou-se rápida de onde estava sentada e fez sinal para descer, esperando que o motorista abrisse as portas do veículo. Trimmm, trimmm. Nenhuma resposta ao movimento impaciente. Trimmm, trimmm. Os guardas se aproximavam do automóvel enquanto o coração batia em frequências mais elevadas. Trimm, trimm. Enquanto as portas da frente se abriam para os guardas, enfim as de trás se escancaravam. Clarice desceu nervosa e andou com pressa na direção dos prédios comerciais que demarcavam o início da cidade.

– Senhora, parada aí! – gritou o guarda quando a viu sair em disparada na direção do comércio da cidade e da solidão dos antigos prédios.

Clarice se perdia as ruas rodeadas de grandes edifícios enquanto o guarda parecia acelerar o passo atrás. De noite, aquela parte da cidade era solidão e Clarice transpirava medo à medida que os pés a guiavam em direção ao inexplorado. O corpo excitado, estimulando o coração e elevando a pressão arterial, deixavam-na como se flutuando entre as ermas vielas. Não seria presa, não deixaria que lhe capturassem. Estava disposta a correr enquanto as pernas lhe sustentassem e a lutar enquanto o corpo suportasse. Ouvira histórias horríveis da boca de Morgana, da polícia a favor do Estado que violava e constrangia mulheres, sem piedade nem decência, apenas por diversão e abuso do poder.

Os pés exaustos, como se tivessem correndo por dias, sinalizavam fadiga. Ofegante, olhou para trás e, não vendo ninguém, parou por um momento, encostando-se ao lado de um grande latão de lixo na calçada estreita da rua. Respirava atônita enquanto tentava evitar ruídos, mas o desejo premente de encher os pulmões era barulhento e Clarice arfava ciente de que poderia chamar atenção. Durante o breve repouso, levantou os olhos suados e, na sua frente, as palavras vermelhas grafitadas gigantes na porta da garagem de um prédio: 

A PALAVRA É O MEU DOMÍNIO SOBRE O MUNDO. C. L.

Enquanto percorria as sílabas rubras, pensava se um dia as palavras teriam o poder de guiar os passos da humanidade. Senão do mundo como um todo, pelo menos do país onde vivia. Perguntava-se se seriam capazes de conceder aos humanos alguma dose de humanidade, algum sol de um novo mundo. Pela primeira vez, sentiu-se incomodada com o governo a ponto de querer, se lhe dessem fogo, queimar a sede do Estado, e, se lhe dessem armas, dizimar a injustiça que perturbava o sono do trabalhador. O fôlego irado se renovava a cada pensamento indignado e, levantando-se, pôs os pés a correr mais uma vez para longe dos peões do Estado quando uma sombra surgiu na sua direção.

– Te peguei – disse o policial enquanto agarrava os seus braços e sacudia o corpo de Clarice – Onde você pensa que vai com tanta pressa?

Enquanto enroscava um braço em volta do corpo hesitante de Clarice, a outra mão revistava seus pertences. Ela estava assustada demais para pensar, poderia reagir, mas sua força não se comparava a do homem. O único músculo que tinha desenvolvido era o cérebro e, até onde sabia, o cérebro nem músculo era, então sempre ficava em desvantagem contra os braços grandes do brutamonte. Se sua fúria tivesse poder, teria repartido o corpo do sujeito em quantas partes fossem possíveis partir naquela mesma hora. 

– O que é isso aqui? Livros? – corria o olhar pelos papéis ainda pressionando o corpo de Clarice ao seu – Uma moça tão bonita se metendo com tráfico de literatura... – dizia lento enquanto lançava olhares furtivos para Clarice.

Os olhos da mulher encontraram os do policial e, num rápido movimento, ele segurou seus longos cabelos escuros, mergulhando ousado o nariz entre as curvas de seu pescoço, como que buscando o seu suave perfume de mulher. Clarice não pensou muito, abriu a boca e mirando no espaço entre a supraclavicular e a jugular, reuniu nos dentes a sua agonia, e enfiou os caninos no pescoço do homem. O grito que se sucedeu a mordida ecoou pela rua escura e Clarice abandonou a garganta fissurada quando sentiu na boca um sabor diferente. Libertou-se dos braços do policial e cuspiu no chão. 

O ódio percorria as suas veias e, dirigindo o olhar para o corpo do policial no chão, ela sorria enquanto o homem tentava conter o sangue que escapulia da garganta. Ajoelhou-se para guardar suas páginas espalhadas, algumas molhadas pelo sangue. Não vendo ninguém ao redor, arrancou do homem a arma que carregava na cintura e guardou-a com cautela debaixo da roupa. Pensou ainda um instante no que estava fazendo, mas quando se levantou já não era mais a mesma.

Contratempo Moderno

Trimm trimm trimm.

"Alô?" 
"Alô, Márcio? Já caiu a recarga que eu fiz pra ti?"
"É engano, meu amigo, não tem Márcio nenhum aqui."

Tu tu tu tu tu.

Mas a recarga caiu.


Estado de Natureza

O gato da mulher, depois de tanto sofrer, morreu de velhice. Ela, sem saber para onde levar o corpo, juntou os restos do felino e colocou tudo numa sacola plástica, dessas de supermercado. Pela rua, silenciosa e arriscada, andou sem encontrar um depósito para o cadáver do bichano. Já ia quase desistindo quando dois elementos de moto pararam ao lado dela. O de trás, levantando uma arma, disse-lhe carrancudo: - Passa a sacola, mulher - e ela, sem pensar, entregou aliviada a sacola ao sujeito.


Cartão postal do paraíso


Nadava sem jeito na falta de espaço e descansava mesmo sem cansaço algum. Era assim, estranho no início, confortável em seguida. No dicionário, depois, descobri que paraíso definia melhor a úmida atmosfera. Mas o nome era diferente. Chamavam-lhe ventre, diziam sempre, e o líquido em que mergulhava, amniótico.  No invólucro protetor, perto do quinto mês, minha audição já processava asneira: um falatório repetido sobre gente que eu não conhecia. Era fofoca, fui descobrir anos mais tarde, usada quando a vida dos outros é mais atraente que a nossa.

Um dia, sem quê nem para quê, fui cuspido para fora. Expulso do paraíso e enxotado do meu, até então, sossegado éden. Encravado no aconchego e vivendo cada dia por viver, vomitaram-me como se existir fosse pecado. Uma barbaridade, uma claridade forte e umas mãos pesadas em mim. O doutor, enquanto agarrava-me pelos pés, sorria com dentes grandes. Tão feio que não deu outra: chorei logo no instante em que o vi.

Conheci tudo quanto era gente e chorava em tudo quanto era ouvido. No futuro, quando a língua gesticulava, batizei a dona de um desses ouvidos de mãe. Criatura atenta a mulher, cuidava de tudo. Logo eu pensava e ela adivinhava meu querer. Uma formosura de pessoa, não durou muito e assim, com tanto chamego, me apaixonei. Um amor à primeira experiência de vida.

Fui tomando corpo, as pernas crescendo, os dentes caindo e, quando dei por mim, já tinham roubado minha infância. O amor de minha mãe já não era suficiente, uma urgência no meu peito crescia, um desejo queimava. Mesmo não sabendo do que se tratava, apenas sabia que nunca estivera ali. Era como dar falta de alguém que não existia, sentir saudade de algo que nunca se teve.

Eu crescia cada vez mais enquanto um calor pulsava cada dia mais intenso, confundindo tudo e semeando estranhos pensamentos. Quando conhecendo a mim, descobria sensações que ninguém mais parecia ser capaz de me oferecer. Uma cócega agradável e um conforto que me saciava por completo. Expulso do paraíso, fui encontrar alívio nos braços de minha mãe. Quando nem mais o paraíso de seus braços me consolavam, encontrei o refrigério em meus próprios toques e devaneios.

Quando a adolescência passou e a puberdade me deixou suas marcas, foi então que pude ser capaz de sentir. Uma sensação específica proporcionada por uma pessoa muito especial, um brilho intenso que iluminava no mesmo reflexo que cegava a vista, um canto que extasiava ao mesmo tempo em que ensurdecia. Foi assim, de repente, que descobri que minha maior necessidade era de amor. Amor que transpunha o sentimento e que repousava na carne. Amor de entusiasmos que incendiava o senso crítico. Amor que era um cartão postal do paraíso.

Fim de Tarde


Que cheiro ruim, pensou. Esse de fim de tarde, atenuado talvez só pelo perfume de mulher. De tal modo, não importava. De onde estava estendeu os braços fazendo sinal, precisou mantê-los firmes no alto, por um instante pensou que seria em vão. Não foi, subiu o ônibus como que já fatigado pela tortuosa viagem em direção a casa.

Contou o dinheiro as pressas, separando um punhado de trocados de nem um mindinho de moeda. Escolheu o punhado, com as melhores das intenções, e entregou ao cobrador. Fitaram-se, como que se desafiando por motivos nem tão nobres. É dinheiro, ora essa, que faça suas caretas pro diabo, não pra mim.

Sentou-se à janela, sentindo o cheiro de fim de tarde. Inspirava o cansaço vespertino deixando que lhe habitasse os pulmões. Pensava em Mina, ao mesmo tempo em que expirava tédio, e queria, por um momento, não esquecer todo aquele perfume moreno com borrifos de suor. Essa tarde, ao menos, valeu pelo restante do dia. Não menos diferente que os outros, mas o dia já tinha lhe esgotado as energias. Pela manhã tanto trabalho e um pouco de luxúria pela tarde não era assim tanto pecado. Só de pensar na tarde já ia ficando intumescido.

Mesmo dentro dos pensamentos foi capaz de ouvir as altas palavras: - Sem pânico, geral. Vâmo todo mundo tirando o celular dos bolsos tudo e passando o dinheiro pra minha mão. Justo agora, pensou. Lembrou-se dos livros na mochila, do dinheiro no bolso e dos outros objetos não mais importantes que fariam falta no futuro. Fechou os olhos por um segundo, abriu-os, observou a situação e vomitou as palavras, com uma saliente faísca de poesia para o habitual: - Puta que pariu!

Novo Mundo


Era o quê outrora a imaginação criava, o que a audição desenhava para mim. Mulheres com seus rostos ainda não marcados, pouco nítidos, uns corpos iguais ao que escuto – nas diferenças que minha mãe por vezes ressalta. Diz que são das ancas mais firmes, esparsas e chamativas, nada que de súbito chamasse atenção pelo olhar. Por um momento ignoro o que fisicamente me rodeia e devaneio.

Lembro que pequeno escutei dizer que a alma ficava presa ao corpo e o único deleite que a dita possuía do mundo era pela visão, era pelos olhos, nada mais além, via apenas, sem interagir. Penso em minha alma, que vida essa que lhe dei, merecia condição melhor, mas sabe-se lá o que as complexidades da vida colocaram no caminho meu sem que eu pudesse ver. Sem nunca ter visto.

Talvez eu seja minha alma, minha alma presa no eu criado pelo que ela, ou eu, escutamos. Ou somos distintos presos em um só propósito. Então dizem que depois da morte a alma vai embora e eu fico. Por vezes torço que minha alma seja eu mesmo – não quero ficar por cá não. Mas deve ser isso mesmo, meu eu inteligente nesse corpo que apenas obedece. O que é triste, meu eu minha alma ao mesmo tempo, então eu vivo só aqui dentro realmente.

Mas esses pensares sem fundamentos eu prefiro deixar de lado, me certificarei de descrever a cena curta que ainda me recordo. Haviam uns quadrados imperfeitos também que habitavam pelo chão, todos chamam de rua por essas bandas. E eu andava numa naturalidade, num caminhar tão espontâneo, sentia-me senhor supremo de cada passo meu. E assim era, até que uma comichão, uma coceira danada, aquele incomodo ferrenho e pá!

Um bicho me tirando o sono. Não era a primeira, distante de ser a última vez que tenho meus sonhos interrompidos. Chamei a mãe pra me guiar até o banho, já era dia, arrumei pra escola, numa reminiscência, enquanto ela dava os gritinhos peculiares de mãe. Nessas horas penso que se pudesse escolher, preferiria ser surdo ao invés de cego.

Camila - Conto

Nessa casa os quadros contam história, os papéis escravos do drama familiar narram de tapas sem razão a sexo sem desejo. E penso que esse meu corpo, que deus fez de uma alma impura, é belo a vontade para contrastar com o pó miserável que carrega a memória desse casamento sem sorte – não meu.

Ninguém, exceto a mim, circula nesse lugar e tenho certeza de que é hora de esperar o bem amado. Nos seios um tecido suave, nas ancas firmes uma saia velha e nada mais embaixo. Os cabelos úmidos aroma framboesa – agradeço as loções que me dão cheiros de outros continentes - e as mãos rígidas estigmas desse lavar que me corrompe a coluna.

Chega sempre na mesma hora, beijo-o do queixo as pontas do ouvido, sussurra-me uns dizeres que me fazem convencida. Põe fora toda aquela paixão que cresce instantânea. Roçando corpos um tempo e a porta gigante que denota a frente da casa range quase sem se notar, porém nota-se. Separamos os corpos numa rapidez clandestina e fingimos sérios.

- Essas propagandas partidárias deviam dar sossego, na rua, tv, até o mercado do Sião deu pra essas presepadas... Vote consciente e isso, vote certo e aquilo, cogito nem votar esse ano e vocês?, pergunta, tomando todo o ambiente, a mulher que usa do mesmo homem que eu.


- Eu não sei, nenhuma opinião ainda, não entendi o vocês, nem idade a Camila tem pra votar, não é?, respondo que sim nada orgulhosa e deixo os meus pais sozinhos no lugar.

Meretriz da baixa avenida - Conto


Coloca alguns cigarros no bolso e outro nos lábios frios. Traga toda aquela vontade incontida e despeja o prazer exacerbado numa fumaça que se atenua. Repete o processo tantas vezes enquanto os olhos procuram companhia ou um corpo, apenas, que não fale, mas obedeça. Fita uns rapazes fortes, esguios e de faces repletas de falsa candura. Não há interesse, o momento é outro, o instante é outro. Se ao invés daqueles homens tão cheios de si, houvesse um menino tímido, disposto a ouvir, aprender. Mas não havia.

Caminha ainda veloz e depara-se com quase riqueza a pouco almejada. Dos olhos escuros e assustados, das mãos nervosas e sem jeito, dos seios atentos e de uma cintura firme, mas súdita do tempo. Era bela, moça muda, mas cheia de corpo. Conversaram pelo tempo necessário. Em se tratando de negócios, agilidade e esperteza são fatores fundamentais.

No ambiente apropriado aos devaneios, se olham. Dele um olhar viçoso, reto, marcado de culpa, olhar que – pasme – tem sede, sede de vida alheia, vida vagabunda. Dela se ofusca vontade, transpira nervosismo, não é a primeira vez, já esteve na situação por muito menos, o prazer, se der caras a cena, será bem recebido por surpresa. Não é tarde pra mudar o tempo, pra sair da situação, mas prefere o risco, a moçoila dos peitos já intumescidos, dos lábios embebedados de desejo, deixa assim.

Um remexer desesperado se prorroga. Trata sua virgem na violência, mas paradoxalmente vai semeando sentimento. Ele, força, fixa-se tenaz ao corpo que se apresenta escravo. Enroscam-se formando um agonizante gemido, um ofegar desinibido, apertam-se. “Pera, calma”. Fortemente atracam-se lotados de uma vontade não compartilhada. Um penetrar de opiniões, um entrar e sair de conceitos. O calor misturado a arrependimentos, ela sem ar: “pera, um instante, vou no banheiro”. Porta do mictório fechada, ela fita-se um instante no espelho, num batom tom escuro escreve coisas na vidraça suja, um “que merda”, uma declaração talvez, e volta ao quarto disposta a deixar o local.

Sendo impedida de ir embora, esperneia e grita “me solta, louco, me solta, porra!”, cada hora mais cheia de arrependimentos. “Porra é o caralho. Puta! Isso mesmo, puta! Meretriz da baixa avenida, é isso que tu é!” e tasca-lhe os punhos na face da pobre. Novamente sendo despida, agora sem consciência, vai tornando-se útil as vontades doentias. Ele certifica-se de que a moça morre e torce-lhe o pescoço pra terminar o ato, pra matar por fora o que por dentro fenecia há tempos.

Sem quaisquer pesos, levanta-se, arruma-se lento e vai acendendo cigarros que lhe sossegam a mente. O corpo que ficasse por lá, destino do lixo todos sabem qual é, o trabalho de dar fim ao entulho que fosse de outro, não dele, o seu bem a humanidade acabara de fazer. E ainda pelo quarto, toma-se de uma vontade de urinar, despejar esse aperto pra fora. Esporrada de uréia, de uma uréia diluída a satisfação, sim, mas também marcada pela culpa. E saindo apressado, sem lavar as mãos, percebe uns escritos adelgaçados no espelho, aproxima-se gradualmente e atento, lê as palavras que lhe soam incômodas: “desejo que o mais novo soropositivo do mundo seja feliz!”. E ela também fizera o seu favor à humanidade.



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Depois de um tempo o conto foi mudado, o final foi reescrito. Especificamente depois de algumas sugestões feitas pelo Guilherme de Andrade, sugestões de muitíssimo valor.

Barca Boa - Conto


Pegou no meu braço com força bruta, num estampido forte, numa surra de boa intenção. Confesso a vontade, ninguém tão perto, sem populações, sem nada. Deixei a falta de ritmo se apoderar de todos os movimentos involuntários que nos surgiam, nasciam alterados, acelerados, lascivos, formados dessa falsa paixão. Ficou assim, nessa respiração vaga, numa espera incontida de um e de outro. Um passo se houver o teu passo, seu passo se houver meu passo, movimentos dependentes.
Desde o primeiro dia de viagem fitávamo-nos cheios de segredo, repletos das más intenções. O tempo passava desesperado e uma ladainha de indiretas e confissões que não são confissões ocupava os dias de férias. Entendiam as meias palavras quem queria e conforme queria, mas todos ouviam. Vive-se de acordo com suas próprias interpretações. Agora, no entanto, retornávamos pras nossas casas no caminho do rio.
Sem mudar de posição, os braços meus seguros naquelas mãos alheias, com um espaço não muito longe entre nosso físico, ainda na espera de uma reação. Voltávamos pra cidade, pra poeira, pro aglomerado de gente. Na barca vinham os outros e nós dois, tinha um silêncio, tinha a sensação do nada, tinha as nossas excitações. Foi toda família passar tempo no interior, talvez quem me agarrasse naquele instante fosse família, tão pouco importa. Qualquer um que nos visse, lá atrás da pequena embarcação, qualquer que notasse nossa falta de ação não se exaltaria. Não muito se abriria aos ares, não raro seriam flores e árvores gigantes, tão gigantes como a vontade de devorar o desejo que andava a solta.
Ficamos ali, estáticos, movidos apenas pelo balançar das águas que nos levavam. No ritmo desacelerado dos fins de diversão, de aventuras e viagens. E viemos, sem mais, apenas desejando estar de fato a sós.

Balões - Conto

Caminhavam aos domingos como para extrapolar, respirar coisa diferente. Saiam mãe, pai, filhos e uns amigos por vezes. O menino mais velho, outrora mais apegado aos pais, implicava sempre com brinquedos, guloseimas, mas sufocadamente implorava por balões. Era costume, era besteira, mania de criança, não importava, queria os balões. De variadas formas, de diferentes preços, uns de um vermelho forte, escuros, azuis ou cor de pêssego. E chorava em desespero por um que fosse dos cheios casulos de ar, na tentação os fitava e exasperado pedia aos berros que nem sempre existiam, nem sempre eram reais. Diversões, asneiras e por alguns instantes até se esquecia que um dia quis balões, mas logo se lembrava.

Balões sufocados, que não trocam com o externo o essencial de si. E se trocam e tem oportunidade de entrar em contato com a vida aqui fora, de unir seu intimo ao natural de todos, ou é de início, quando descobrem o seu quase viver através de sopros, ou é de fim, quando o quase viver é espalhado num estampido forte, um barulho tremendo, quase que uma confusão, um “bom” de bomba que explode em meio à natureza.

Foi mudando de dente, virando gente no meio de gente e conhecendo o mundo longe das diversões. Aos domingos iam todos a praça, por vezes com rapidez, outras vezes docemente demoradas, os assuntos iam se mudando, constantemente olhares se cruzando ávidos por sentimentos. Já mais maduro, mas novo por dentro, comprou, com seus poucos trocados, uns balões, lá mesmo, pelo antigo caminho da praça. Ainda morava com os pais e a família era a mesma, a casa, a praça, os passeios, só não as vontades. Segurando todos os coloridos balões nas mãos que se descobriam a cada dia, os foi soltando, deixando que voassem e fossem viver longe daqui ou o mais longe que pudessem. Tomavam altitude e aos poucos iam sendo impedidos de subir pelos raios de sol, iam se fenecendo, morrendo, como os desejos que já morriam no menino, os desejos devorados por outros desejos.

Não dá! - Conto


Meia-noite e uma cama, nervosismo perceptível e ansiedade ultrapassada. “Vem ou não vem, vem ou não vem?” Não vem. Mas esperara-se a chegada como forma de sofrer e depois contar dos sofrimentos. É mais significativo dizer que se espera até as quatro da manhã do que dizer que dorme às onze da noite. Levanta, deita, conta, pega uma folha e escreve abobrinhas sentimentais. “Preciso te transformar em esquecimento.” Mas não se esquece o que está impregnado, fixo. Não raro tenta se ignorar, raro se consegue.

Vai baforando um hálito caipirinha e mel, embora o beber tenha perdido sua prioridade. Não vem, mas disse que vinha. “Deve tá se agarrando com outro alguém, eu aposto!” Nada que o tempo não acalme e a morte não leve. Mas avisasse antes da demora, alertasse com antecedência, qualquer dizer era viável. Ou não.

Pára, anda, pára, abre a janela do apartamento e olha quase esperançosamente para baixo: e nada. Arranca folhas de um velho bloco e continua a escrita, outras palavras, mais baboseiras, mais por escrever do que pra escrever. Paciência é mordomia, o que agonia é a incerteza. Quase duas da madrugada e notícias não surgem. Espera, espera, esperneia e explode a raiva na sorte. Não dá mais pra esperar. “Não dá!”

“Tá decidido, chega disso!” Cancela tudo, desliga as luzes, prepara a cama pro sono e sonha pra acalmar. Praguejando aos ventos e dizendo asneiras. “Isso acaba, nunca mais, nunca mais, nunca mais um mísero sentimento meu!” Enrola-se nos panos com a cara entre os dedos e os dedos sentindo os desabafos. “Dessa vez não vai ter volta.”

Enrola-se e deita, abre olho, fecha rápido. Levanta-se e aos pulos,como se apostasse consigo mesmo, abre a janela: ainda nada. Era óbvio, era difícil de entender. Um toque ligeiro no celular e ele pisca, pisca, pisca, dançando no vibra call. Olham-se quase que desconhecidos de si mesmos, o celular e o seu dono. Era uma mensagem, uma aparente curta mensagem, não lê, não responde. E dorme com a certeza de que as coisas não vão mudar. É o hábito insaciável que não pára.

Objeto de Vida - Conto


Seguraram-na firme. Firmeza de fome, vontade de comer, beber, vontade de se alimentar. Nem se importavam com os seus sentimentos, as suas vontades, queria ou não ser usada. Fora comprada em uma viajem ao sul, no sul que quiser. Foi cara, muito dinheiro para hoje nada receber, um carinho, um amor, só dedos sujos, raro uns toques, lábios umedecidos, um grande abraço quando quem lhe abraça parece estar triste, ou com grande sem vontade, vontade de fazer nada apenas, mas vontade e sem vontade parecem não existir ao mesmo tempo.
Foi nos dias desses sentimentos sufocantes, abatidos, passageiros, que ficou sabendo que seria trocada. Tempos tristes passou, tantos anos na casa, na família, enraizada nas histórias, era a própria história. Chorou, gemeu, lamentou, no entanto, permaneceu no lugar habitual. Não fora trocada, nem seria, daria o que tinha de dar, e quando não desse mais poderiam pensar melhor.
Um susto grande levou quando se feriu, logo no iniciar do grande período de chuvas, no frio do clima, densidade do ar, terras que bebiam água. Muito foi usada, tornou-se legitimadamente objeto. Por aí, chegou alguém na casa, aparentemente anormal, sonolento, porre talvez, era um dos donos. Nessa ocasião lhe mudaram a vida drasticamente. Sede tinha, o homem que chegara. Avistou-a, preparou seu chá, o de costume quando os males são as sonolências, mal feito, mas feito. Ele, alguns centímetros de distância da que veio do sul, poucas respirações, mais nada. Fitaram-se por alguns minutos, o chegado a tomou fortemente pelos lados, mas ainda tonto, deixou que caísse, e caiu.
Frustração e muita dor ao mesmo tempo. Quebrou-lhe a orelha de forma violenta graças à embriaguez, e só quem já quebrou a orelha para ter capacidade de descrever a dor que se sente. Não era mais útil. Era um lixo, algo a ser jogado fora. Passou o restante dos seus cacos de vida abalada, antes era inteira, agora, no entanto, uma xícara quebrada.


Súbita Ventura - Conto

Ter pernas, mas não usá-las. Complicada a situação de quem anda mentalmente, quer seguir, correr, mas não raro consegue uma queda, fruto de algum desequilíbrio, aforismo, empolgação. Era uma vida sem ventos a do navegador. Perdera o controle das suas pernas em um acidente quando descarregava barris, se quer sabia para onde iam os barris, quais eram esse barris, o que de tão importante, pesado, denso podia ter dentro dos barris e que lhe tiraram o caminhar essencial, antes nem tão notado.

Foi em umas igrejas, apegou-se em algumas crenças, fez alguns rituais. Nada que lhe beneficiasse, fazia por conselho, um disse-me-disse, a vizinha da amiga que aprendera uma pajelança com a sobrinha da tia-avó e nada mais.

Queria seus movimentos, era um sonho, sonhos nunca tivera, agora orgulhava o seu caráter pelo sonho solto no ar. Ganhava dinheiro, pensão, alguma espécie de ajuda, indenização, fosse o que fosse, era dinheiro. Auxiliava a vida de forma ociosa, era mais um nada que uma coisa, e ser coisa nem sempre é desejo, neste caso, desde que não fosse nada.

Uma espécie de milagre acontecera, não acreditava nisso, todos falavam e falavam, atribuiu a repentina cura a qualquer milagre. Sim, começou repentinamente a ter seus movimentos. Que disputassem os deuses até conseguir, um que seja, o mérito de curador.

No mesmo instante da glória, levantou-se. Correu nas grandes velocidades, correu, correu, correu e fechou os seus olhos de navegador sem obstinações. Abriu os braços, ainda na correria, e deixou que seus pés lhe levassem.

Ouviu um forte barulho, alguém gritando, a felicidade ensurdecera, buzina atenciosa. A sensação que ainda teve foi de um grande baque, uma forte e intensa batida no meio de seu corpo, caiu inanimado e despediu-se, por ali, com motoristas tentando ajudá-lo, da vida que a pouco recebera novamente.

Nenhuma Santa - Conto





Foi assim, despindo-se ébria, cabelos ao descuido, envergonhada pelo que fez e dominada de cansaço que se rebelou com esses seus devaneios, parceiros adornados, não raro abobados da vida. Uma noite ruim para se terminar com o peito ativo, o coração batendo, mas a cabeça doía e, de certa forma, isso compensava a falta de desgraças complementares. E antes fosse por fatores biológicos a enxaqueca, mas era pelas confusões que se metera.



Foi caminhando pelo corredor da casa, esfregando-se na parede, a luz acesa ficando mais longe e o corpo tendendo para o chão. Andando apoiada pelos objetos fixos, outros sensíveis, pensáveis, quase caindo, mas bastava-lhe a moral tão baixa. Chegou ao banheiro, luz ainda desligada, mais por vontade do que por disposição. Cogitou olhar o espelho, sabia que deveria estar uma sem nada, teto, caráter, sem rosto de mulher. Debaixo do chuveiro, sentou-se no chão e com o braço alongado foi girando, vagarosamente, a válvula que abria o caminho para a água. Manteve a luz desligada, não queria se ver nos reflexos dos fluidos, das lajotas brancas, nem do corpo nu que refletia e transpirava as conseqüências da bebedeira.



Besteiras que fizera. Foi se emaranhar com alguns desconhecidos, um deles seu amigo, desconhecido o ar peralta até então, o outro alguém que a motivasse, e mais um elemento surpresa. Um desses lugares onde a perversão é companhia necessária, vai quem quer, vai quem nunca teve, vão os desesperados, doidos de amor – sexual, mas muito amor- para se entreter. E ontem, pela ocasião, a santa foi se divertir. Pegou, de louca que estava, nos egos, no corpo, juntou-se a todo o suor, a carne salgada, aos fios quebrados dos cabelos alcançáveis e entregou-se aos dois que arranjara no escuro.




Foram, no início,os três, para longe mais da claridade, mas permaneceram no ambiente de fumaça, dos cigarros que faziam soltar das outras bocas o aroma ritmado, o cheiro penetrante, o ar de exagerados, longas baforadas. No escuro se desmascararam, entorpeceram-se, pegavam-na com firmeza, vontade de bicho, fome de lobo, frieza típica de carrasco. Lançavam-na com força nos corpos uns dos outros, no peito grande que guardava toda aquela coragem de mulher, aquela personalidade tão amadurecida. Queriam ir longe, tentaram. Um desses foi procurar o carro que deveria estar guardado, não sabia onde. Pediu que esperassem, logo estava de volta, e correu inturgescido.



Saiu e outro, que tudo observava, já preenchia o espaço deixado. “Voltou cedo, cheio de mais vontades, ora veja, mas foi um menino e veio um homem ensandecido deste carro, o que houve?” Ninguém respondeu-lhe e, de olhos fechados para o que acontecia, nem queria que falassem mesmo. Não percebeu o que houve, mas já estava sendo envolvida por outro, alguém mais desconhecido que os outros dois, o elemento surpresa.




Terminaria a noite toda com esses apertos, beliscos e sussurros, palavreados distorcidos. Mas se surpreendeu com uma batida forte, um empurrão violento. ”Parem! Parem! O que foi? O que houve? Parem!” “Cala a boca mulherzinha! Cala a boca!” “Mas o que aconteceu? Alguém me explica?”. E os dois homens brigavam no chão desnecessariamente, na certa loucos. Uma correria, um alvoroço, gente correndo por todos os lados. ”Segurança! Segurança! Rápido, tira esses daqui! Leva pra longe! Leva!” Eram apenas os dois que rolavam nos socos, mas estavam já os quatro na rua. Lá fora seguiram seus caminhos, ignoraram as outras vidas. No exterior da festeira, a santa mulher, não tardou descobrir que um dos que lhe agarravam, com perfeita aptidão, era um sobrinho seu, que já corria para longe da situação, depois de traído pela tia, apanhado pelo descaso. O amigo que tinha, até momentos atrás, também a deixava só. O outro, que freneticamente lutou e de forma audaciosa se infiltrou na brincadeira, já ia distante, também de face ferida.



Com a cara de arrependida, um corpo cansado e algumas vermelhidões pelo corpo, pensava no tudo que ocorrera, com sono leve. "Que tornado este que fui cair, que vento esse que me derrubou? Que força! Que desejo! Que merda eu me meti!" E dormiu no banheiro, a água correndo, as pernas com uma sem vontade de andar, a reputação escancarada. Feneceu momentaneamente afim de jamais acordar, mas, quisesse ou não, amanhã acordaria.